Vida de Santa Catarina Labouré e São Tiago da Marca (28 de novembro)
- 28 de nov. de 2025
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Tiago nasceu em Montebrandone, na Marca de Ancona. Seu sobrenome era Gangala. Seus pais eram pessoas humildes. O santo veio ao mundo em 1394 e, em 1416, pediu admissão no convento dos frades menores de Assis. Seus superiores enviaram-no para fazer o noviciado no pequeno convento de Carceri, nas proximidades de Assis. Mais tarde, Tiago estudou em Fiésole, sob a direção de São Bernardino de Siena. Aos vinte e nove anos recebeu a ordenação sacerdotal. Imediatamente começou a pregar na Toscana, Úmbria e na Marca. Praticava penitências extremas e diz-se que dormia apenas três horas por dia. Copiou de próprio punho quase todos os livros de que necessitava para o seu ministério. Seu hábito estava muito gasto. Seu zelo pelas almas era imenso, e pode-se dizer que passou toda a sua vida pregando continuamente, tanto aos católicos como aos hereges, com grande fruto. Suas missões levaram-no à Alemanha, Boêmia, Polônia e Hungria.
Tiago trabalhava em conjunto com São João Capistrano, que fora seu companheiro de estudos em Fiésole. Em 1426, o Papa Martinho V os nomeou inquisidores contra os “fraticelli”, nome dado a um conjunto de seitas heréticas e rigoristas que então tinham grande difusão na Itália. Os dois frades procederam com tal severidade que vários bispos protestaram. De fato, não só mandaram destruir trinta e seis casas dos “fraticelli”, como também condenaram vários deles à fogueira. Tiago tomou parte ainda em outras campanhas, menos violentas, contra os “fraticelli” e outros cismáticos. Por exemplo, no Concílio de Basileia, contribuiu para a reconciliação dos hussitas moderados, mediante a concessão da comunhão sob as duas espécies. Quando o Concílio se transferiu para Florença, o santo participou da reunião com os orientais dissidentes.

Em 1445, pregou a quaresma em Perugia, onde concedeu o hábito de São Francisco ao Beato Bernardino de Fossa. Quatro anos mais tarde, foi novamente encarregado de tratar com os “fraticelli” e publicou um “Diálogo” contra eles. Tiago pertencia ao ramo dos observantes, cujo sucesso provocara muitas invejas. Numa carta a São João Capistrano, Tiago relata as dificuldades e sofrimentos em que se viu envolvido por esse motivo. O santo tomou parte nas negociações realizadas entre os observantes e os conventuais, mas o projeto de acordo que apresentou à Santa Sé não satisfez a nenhuma das duas partes. Em 1456, durante uma série de sermões quaresmais que pregou em Pádua, despertou em outro Bernardino (Bernardino de Feltre) o desejo de ingressar na Ordem dos Frades Menores. Tiago promoveu os montes de piedade, que o Beato Bernardino de Feltre reorganizaria e popularizaria mais tarde. Naquele ano, quando morreu São João Capistrano, Tiago foi substituí-lo na Áustria e na Hungria, onde deu continuidade à sua obra contra os hussitas extremistas.

Ao regressar à Itália, foi-lhe oferecida a sé de Milão, mas preferiu continuar ao serviço das almas, pregando por toda a Itália. Dois anos mais tarde, em 1462, viu-se envolvido numa séria dificuldade. De fato, quando pregava em Brescia numa segunda-feira de Páscoa, expressou uma opinião teológica que lhe valeu ser convocado perante a inquisição local. O santo recusou-se a comparecer. Como os inquisidores não desistissem, Tiago apelou a Roma. O inquisidor-mor era um dominicano, e tanto os dominicanos como os franciscanos já haviam tomado posições opostas a respeito da questão. Esse incidente provocou um longo debate diante de Pio II, que não resolveu a controvérsia e se limitou a impor silêncio a ambas as partes.
Tiago da Marca passou os três últimos anos de sua vida em Nápoles, onde morreu em 28 de novembro de 1476. Foi canonizado em 1726.
O testemunho mais autêntico sobre Tiago só foi publicado muito recentemente. Referimo-nos às recordações do Pe. Vicente de Fabriano, companheiro e amigo íntimo do santo; foram editadas pelo Pe. Teodósio Somigli no Archivum Franciscanum Historicum, vol. XVI (1924), pp. 378-414. No mesmo artigo há uma bibliografia muito completa, razão pela qual não mencionaremos aqui as outras biografias do santo. Nas crônicas de Wadding, Marcos de Lisboa, Tossignano e Mazzara, encontram-se abundantes notícias biográficas. As principais biografias são as de G. B. Barberio (1702), Giuseppe-Arcangelo de Fratta Maggiore (1830) e G. Rocco (1909). Veja-se também Léon, Auréole Séraphique (trad. inglesa), vol. IV, pp. 125-154; e G. Caselli, Studi su S. Giacomo della Marca (2 vols., 1926).1

Zoé Labouré, filha de um camponês de Fain-les-Moutiers, nasceu em 1806. Foi a única de uma numerosa família que não frequentou a escola e não aprendeu a ler nem a escrever. Quando sua mãe morreu, Zoé tinha oito anos. Algum tempo depois, sua irmã mais velha, Luísa, entrou no instituto das Irmãs da Caridade, de modo que Zoé ficou encarregada dos afazeres da casa de seu pai. Por volta dos quatorze anos, a jovem sentiu-se também chamada à vida religiosa. Seu pai opôs-se um pouco; mas finalmente, em 1830, Zoé conseguiu ingressar na casa que as Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo tinham em Châtillon-sur-Seine. Na religião tomou o nome de Catarina. Ao terminar o postulantado, foi enviada ao convento de Paris (rue du Bac), aonde chegou quatro dias antes de que as relíquias de São Vicente fossem transladadas de Notre-Dame para a igreja dos lazaristas na rua de Sèvres. Ao entardecer do dia dessa festa, teve lugar a primeira das extraordinárias visões que teve Catarina Labouré; mas essa não foi das mais importantes, e transcorreram três meses desde então até que se iniciasse a série de três aparições transcendentais que haveriam de dar fama mundial ao nome da irmã. Por volta das 11h30 da noite de 18 de julho de 1830, a irmã Catarina despertou sobressaltada e encontrou-se diante de “uma criança resplandecente” que a convidava a segui-la com um gesto da mão. A criança conduziu-a à capela das monjas, onde a aguardava a Santíssima Virgem. A entrevista prolongou-se por duas horas e, como se soube mais tarde, no curso da mesma, a Mãe de Deus a advertiu de que a destinava a uma tarefa muito difícil e lhe revelou certos acontecimentos futuros, como a morte violenta de um arcebispo de Paris, que haveria de ocorrer, como de fato ocorreu, quarenta anos mais tarde (Mons. Darboy, em 1871).
A segunda aparição teve lugar em 27 de novembro, quando Nossa Senhora se manifestou a Catarina na mesma capela. Nessa ocasião, a Mãe de Deus não falou, mas apareceu imóvel e resplandecente, como a figura de uma estampa. Parecia estar dentro de um grande círculo luminoso, de pé sobre uma esfera; tinha as mãos estendidas para baixo, e de suas palmas irradiavam raios de luz. Em torno da figura da Virgem aparecia a seguinte inscrição:
“Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”.

Em dado momento, a imagem pareceu virar-se e, no reverso, apareceu um grande “M” coroado por uma cruz e com dois corações abaixo, um cingido por uma coroa de espinhos e o outro transpassado por uma espada. No mesmo instante, Catarina acreditou ouvir uma voz que lhe ordenava cunhar uma medalha com aquela imagem e aqueles símbolos. A mesma voz prometia que quantos portassem a medalha com devoção receberiam grandes graças pela intercessão da Mãe de Deus. A visão repetiu-se no mês seguinte e em várias outras ocasiões, até o mês de setembro de 1831.
A irmã Catarina relatou tudo a seu confessor, o Pe. Aladel, que investigou cuidadosamente o assunto e, convencido de sua autenticidade, obteve do arcebispo de Paris, Mons. de Quélen, a permissão para cunhar a medalha. Em junho de 1832, ficaram prontos os primeiros 1500 exemplares daquilo que desde então passou a ser conhecido como a medalha “milagrosa”. Ao que parece, esse nome lhe foi dado mais pelas circunstâncias maravilhosas de sua origem do que pelos milagres relacionados com ela. Em seis anos, venderam-se 130.000 exemplares da Notícia histórica das origens e efeitos da Medalha Milagrosa, obra do Pe. Aladel, publicada em 1834 e traduzida para vários idiomas, inclusive o chinês. Em 1836, o arcebispo de Paris instituiu uma investigação canônica sobre as visões. Mas a irmã Catarina não compareceu diante dos membros da comissão. As precauções que a santa tomara para permanecer desconhecida, a promessa que arrancara do Pe. Aladel de não revelar seu nome a ninguém, o segredo absoluto que guardara sobre as visões, exceto diante de seu confessor, e sua repugnância em comparecer perante as autoridades eclesiásticas explicam por que os membros da comissão não falaram com ela. O tribunal levou em consideração as circunstâncias, o caráter da visionária, a prudência e o bom senso do Pe. Aladel, e decidiu a favor da autenticidade das visões. A popularidade da medalha cresceu rapidamente, sobretudo a partir da conversão de Afonso Ratisbonne, em 1842. Este era um judeu alsaciano que aceitara, sem nenhum entusiasmo, usar a medalha e que, mais tarde, teve uma aparição de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa na igreja de Sant’Andrea delle Fratte, em Roma. Em seguida, recebeu o batismo e posteriormente foi ordenado sacerdote e fundou a congregação religiosa dos Padres e das Irmãs de Sião. Também se realizou uma investigação canônica sobre a visão de Afonso Ratisbonne.

O relatório da comissão e o do arcebispo de Paris foram amplamente utilizados no processo de beatificação de Catarina Labouré, sobre cuja vida pessoal se sabe muito pouco. Seus superiores a qualificaram como “mais ou menos insignificante, realista e pouco imaginativa, fria e quase apática”. De 1831 até sua morte, ocorrida em 31 de dezembro de 1876, a santa viveu sem chamar atenção no convento de Enghien-Reuilly, onde exerceu os cargos de porteira, responsável pelo galinheiro e encarregada do cuidado dos idosos do asilo. Oito meses antes de sua morte, Catarina revelou à sua superiora, Madre Dufes, as graças extraordinárias que havia recebido. Todo o povo acorreu aos seus funerais. Pouco depois, um menino de onze anos, inválido de nascença, foi instantaneamente curado no túmulo da santa. Catarina Labouré foi canonizada em 1947. Sua festa foi fixada na data de hoje.
Muito se escreveu sobre Catarina e a Medalha Milagrosa. Provavelmente a biografia mais conhecida é a do Pe. E. Crapez, da qual, em 1920, se fez uma edição inglesa abreviada. Mencionemos também a biografia do Pe. E. Cassinari, igualmente traduzida para o inglês em 1934. Anterior a estas é a obra de Lady Georgiana Fullerton, Life and Visions of a Sister of Charity (1880). Em inglês existe uma biografia popular escrita pela Sra. P. Boyne (1948), e em francês a obra de C. Yves, La vie secrète de Catherine Labouré (1948).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 438-439.
2. Ibid. pp. 439-441.






















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