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Vida de São Vicente Ferrer, o Anjo do Apocalipse e Santa Catalina de Palma (5 de abril)

  • há 5 horas
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São Vincente Ferrer em Cromolitogravura (1919), por Weiszflog
São Vincente Ferrer em Cromolitogravura (1919), por Weiszflog (?)

São Vicente descendia de um inglês ou escocês radicado na Espanha. Nasceu em Valência, provavelmente em 1350. Inspirados pelas profecias que lhes haviam sido feitas sobre a futura grandeza de Vicente, seus pais lhe incutiram um grande amor por Cristo e pela Virgem Maria e uma grande caridade para com os pobres. Para isso, o constituíram administrador das generosas esmolas que faziam. De seus pais aprendeu também Vicente a prática do jejum rigoroso às quartas-feiras e sábados, que conservou toda a sua vida. O santo possuía uma inteligência muito precoce. Em 1367, tomou o hábito de São Domingos no convento de Valência e, antes de completar vinte e um anos, foi nomeado professor de filosofia em Lérida, que era então a mais famosa das universidades da Catalunha. Durante seu magistério, publicou dois tratados de grande mérito. Mais tarde, seus superiores o destinaram a pregar em Barcelona, embora fosse apenas diácono.


A cidade atravessava então um período de fome; os navios que traziam o trigo ainda não haviam chegado e o povo estava desesperado. São Vicente pregou um sermão ao ar livre, no qual previu que os navios chegariam antes do cair da noite. Seu superior o repreendeu severamente por fazer profecias, mas os navios chegaram, como ele havia predito, e o povo correu jubilosamente ao convento para aclamar o profeta. Ao ver isso, seus superiores julgaram prudente transferir Vicente para Tolosa, onde permaneceu um ano. Depois voltou a Valência, onde suas aulas e sermões tiveram um êxito extraordinário. No entanto, sua permanência em Valência foi também um período de prova: por um lado, o demônio o assaltou com violentas tentações; por outro, como era extraordinariamente belo, várias mulheres se enamoraram dele e acabaram por caluniá-lo, já que não haviam conseguido fazê-lo cair. Tudo isso fortaleceu o santo para a dura vida que o esperava e o preparou para a ordenação sacerdotal. Logo se tornou um pregador de grande fama; sua eloquência levou numerosos católicos negligentes à penitência e ao fervor, e atraiu muitos judeus à fé; entre estes estava o rabino Pablo de Burgos, que morreu em 1435 sendo bispo de Cartagena.1


O grande cisma do Ocidente


São Vicente Ferrer. Gravura em pontilhado por Bocelman, a partir de C. A. Chasselat.
São Vicente Ferrer. Gravura em pontilhado por Bocelman, a partir de C. A. Chasselat.

No ano de 1376 o Papa Gregório XI deixou Avinhão, na França, a instâncias de Santa Catarina de Siena, levando o Papado de volta para Roma. Foi ele assim o último Papa de nacionalidade francesa, e morreu na Cidade Eterna em 27 de março de 1378.


Em meio aos tumultos provocados pelos romanos a fim de influenciar o conclave, visando à eleição de um papa italiano, em abril desse ano de 1378 os cardeais que se encontravam em Roma, dos quais 10 eram franceses, escolheram para a Sé vacante o arcebispo de Bari, Bartolomeu Prignano, que tomou o nome de Urbano VI, sendo reconhecido universalmente. Infelizmente o novo Papa não correspondeu ao que dele esperavam os cardeais, mostrando-se desde o início excêntrico, desconfiado, e algumas vezes colérico, o que levou Santa Catarina de Siena, com liberdade apostólica, a chamar-lhe a atenção.


Desgostosos, 13 cardeais do Sacro Colégio, alegando o calor de Roma, fugiram para Anagni e depois para Fondi, e em 20 de setembro desse mesmo ano elegeram num conclave ilegal o Cardeal Roberto de Gênova, com o nome de Clemente VII, e este voltou a estabelecer-se em Avinhão. Começava assim o chamado Grande Cisma do Ocidente. Reconhecido por vários países da Cristandade como o legítimo sucessor de Pedro, esse antipapa morreu em 28 de setembro de 1394, sendo sucedido pelo cardeal espanhol Pedro de Luna com o nome de Bento XIII. São Vicente foi um dos que reconheceram [o antipapa] Clemente e seu sucessor, Pedro de Luna ou [antipapa] Bento XIII, que convocou os dominicanos a Avinhão.[a]


Na festa da Anunciação de 1409, quatro patriarcas, 22 cardeais e 80 bispos contribuíram para piorar a situação. Visando acabar com o cisma, reuniram-se de modo ilegal em um concílio em Pisa, depuseram o verdadeiro Papa (Gregório XII, sucessor de Urbano VI) e o antipapa Bento XIII, e em junho desse ano elegeram Pedro Filargi de Gandia, com o nome de Alexandre V. Falecendo esse antipapa em 1410, foi substituído pelo Cardeal Baldassare Cossa, que tomou o nome de João XXIII.


Isso agravou ainda mais a situação, pois passaram a três os pretendentes ao trono pontifício. Esse cisma dividiu a Igreja por quase 40 anos, encerrando-se com o Concílio de Constança (5 de novembro de 1414 a 22 de abril de 1418), que pediu a renúncia dos três contendores para tornar a Sé vacante, e em seguida eleger um Papa reconhecido por todos.


Gregório XII não só abdicou, mas como Papa legítimo fez um decreto de convocação desse concílio, legitimando-o. João XXIII também abdicou. Entretanto Bento XIII não quis fazê-lo, por apego ao cargo, e foi deposto. Em novembro de 1417 foi eleito Papa o Cardeal Odo Colona, tomando o nome de Martinho V, que fez sua residência no Vaticano, restaurando assim para a Sé de Pedro seus antigos direitos e prestígio na Cristandade.2


São Vicente e o antipapa


Pregação de São Vicente Ferrer, por Alonso Cano (1601–1667)
Pregação de São Vicente Ferrer, por Alonso Cano (1601–1667)

Vinte e quatro anos antes, em 1394, São Vicente fora chamado à corte de Avinhão pelo antipapa Pedro de Luna, seu antigo benfeitor, para desempenhar o cargo de Mestre do Sacro Colégio, confessor papal e capelão penitenciário. Vicente foi recebido com grandes honras e até lhe foi oferecido também o governo de uma diocese, que ele recusou. Sua posição, porém, era muito difícil, pois logo percebeu que a obstinação de Pedro de Luna impedia todas as tentativas de unificação. Como esse antipapa era reconhecido como verdadeiro Sumo Pontífice pela Espanha e pelo Geral de sua Ordem, por insondáveis desígnios da Providência São Vicente o apoiou incondicionalmente. Ele julgava que a eleição de Urbano VI fora inválida, em razão do temor da população de Roma em meio ao tumulto durante o conclave. Em vão o exortou a tentar um acordo com o Papa de Roma; mesmo quando o sínodo de teólogos de Paris decidiu contra ele, este permaneceu inflexível.


São Vicente sempre sofreu com a falta de unidade que reinava na Igreja, já que, a partir de 1409, havia nada menos que três "Papas", com grande escândalo para a cristandade. Finalmente, em 1414 reuniu-se o Concílio de Constança para resolver a questão; o Concílio depôs João XXIII e pediu aos outros dois que renunciassem para poder proceder a uma nova eleição. Gregório XII mostrou-se disposto a isso, mas Bento XIII recusou-se categoricamente. São Vicente foi vê-lo em Perpignan para convencê-lo a abdicar, mas todos os seus esforços foram inúteis. O rei Fernando de Castela e Aragão consultou-o sobre o assunto, e o santo declarou que, se Bento XIII impedisse com sua conduta a unidade vital da Igreja, os fiéis podiam legitimamente negar-lhe obediência. O rei aceitou o conselho de São Vicente e, por fim, Pedro de Luna foi deposto. Gerson escreveu a São Vicente: “Somente graças a vós se realizou a união.”3


“Não obstante, na conduta de São Vicente Ferrer foi sempre patente a devoção total à Igreja e a fidelidade ao Pontificado romano. Mais tarde, em contato com os homens que intervieram no Concílio de Constância, e também como resultado de suas viagens pela Itália, tomou conhecimento da realidade e produziu-se nele uma mudança. Tentou primeiro que os três papas chegassem a uma solução, para acabar o cisma. Depois rompeu definitivamente com Bento XIII, ao se convencer de que este não estava disposto a abdicar para o bem da Igreja”.4

A aparição de Jesus e a pregação


Enquanto estava na corte de Avinhão, São Vicente ficara angustiado com a situação da Igreja, por isso adoeceu gravemente. Nosso Senhor apareceu-lhe então, acompanhado de São Francisco e de São Domingos, e lhe disse:


“Levanta-te, Vicente, e consola-te. O cisma irá logo acabar, e será quando os homens puserem fim às numerosas iniquidades com as quais se sujam. Levanta-te e vai pregar contra os vícios. É para isso que eu te escolhi especialmente. Adverte os pecadores a que se convertam, porque meu julgamento está próximo”.5

São Vicente Ferrer, por Pedro García de Benabarre – Museo Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona (Espanha)
São Vicente Ferrer, por Pedro García de Benabarre – Museo Nacional de Arte da Catalunha, Barcelona (Espanha)

Curado milagrosamente, o santo partiu então para a odisseia prodigiosa de orador, catequista e viajante. Obra apostólica, com brio de lutador, diplomacia de estadista, portento humano em resistência física e no domínio dos homens, e testemunho flagrante do poder natural que reside sempre na Igreja”, como diz um hagiógrafo.6


São Vicente partiu de Avinhão em 1399 e pregou a enormes multidões em Carpentras, Arles, Aix e Marselha. Além dos habitantes de cada lugar, contavam-se entre seus ouvintes homens, mulheres e crianças que o seguiam de um lugar a outro. No início tratava-se de uma multidão heterogênea, mas pouco a pouco o santo os foi organizando: deu-lhes uma regra e os transformou em valiosos colaboradores; os “Penitentes de Mestre Vicente”, como eram chamados, ficavam, por exemplo, na cidade onde havia ocorrido a missão para consolidar o trabalho do santo. É digno de nota que, numa época de costumes tão relaxados, não parece que tenha havido suspeitas contra nenhum membro daquela heterogênea companhia. Alguns sacerdotes faziam parte dela e se encarregavam de organizar os coros e de confessar os peregrinos.


Entre 1401 e 1403, São Vicente pregou no Delfinado, na Saboia e nos vales dos Alpes; depois foi a Lucerna, Lausana, Tarentaise, Grenoble e Turim. As multidões se apinhavam para ouvi-lo, e em toda parte o santo realizou extraordinárias conversões e milagres. Os principais temas de sua pregação eram o pecado, a morte, o inferno, a eternidade e, sobretudo, a proximidade do dia do juízo. Falava com tal energia que alguns de seus ouvintes desmaiavam, e os gemidos da multidão frequentemente o obrigavam a fazer longas pausas. Seus ensinamentos penetravam profundamente e produziam verdadeiros frutos de conversão e emenda de vida. Bonifácio, um dos irmãos de São Vicente, era prior da Grande Cartuxa; o santo esteve ali várias vezes. Os anais da Cartuxa dizem: “Deus operou maravilhas por meio desses dois irmãos. Aqueles que se convertiam pela pregação de um, recebiam o hábito das mãos do outro.”


Em 1405, São Vicente esteve em Gênova; dali dirigiu-se a outro porto para embarcar rumo à Flandres. Entre outras reformas, conseguiu que as damas da Ligúria simplificassem seus extravagantes adornos de cabeça; segundo um dos biógrafos de São Vicente, “este foi o maior de seus milagres.” Nos Países Baixos realizou tantas maravilhas que teve de reservar uma hora diária para curar os enfermos. Durante mais de 30 anos, tornou-se o maior missionário da Igreja Católica até então, pregando não só na Espanha, mas também na França, Holanda, Itália, Saboia e Suíça. É menos provável, embora não impossível, que tenha chegado à Inglaterra, Escócia e Irlanda, como dizem alguns.


O dom das línguas e o fim do mundo


São Vicente Ferrer
São Vicente Ferrer

Embora o próprio São Vicente afirme que, além de sua língua, só havia aprendido o latim e um pouco de hebraico, devia possuir um dom de línguas absolutamente extraordinário, pois, segundo autores dignos de fé, seus ouvintes — fossem franceses, alemães, italianos, etc. — entendiam tudo o que ele dizia, e sua voz era ouvida claramente a enormes distâncias. 


“Falava em sua língua d’oc catalã-valenciana. […] Fazia-se compreender por enormes massas populares reunidas ao ar livre, porque nenhuma igreja era de molde a abrigar todos. Esses homens incultos, que ignoravam o catalão-valenciano, seguiam sem dificuldade os seus sermões, tomavam gosto e voltavam”.7

Muitos contemporâneos deram testemunho desse dom das línguas no processo de beatificação. Cumpre notar que São Vicente Ferrer, tomando ao pé da letra as palavras de Jesus Cristo — “meu julgamento está próximo” —, parecia convencido da iminência do fim dos tempos. Por isso, seus sermões insistiam com vigor na conversão de vida e na preparação das almas para comparecer diante do Supremo Juiz.


O temor salutar dos acontecimentos terríveis e do Julgamento Final parece ter sido sobretudo articulado por ele para obter em seus sermões a conversão dos pecadores. Chegou a anunciar em seu primeiro sermão que o Anticristo provavelmente já teria nascido, e mais tarde afirmou aos mesmos ouvintes que uma boa comunhão pascal dissiparia esse pesadelo”.8

Para reforçar o efeito de suas palavras, São Vicente lançava mão de todo o cerimonial da Igreja, como procissões, missas solenes, exposições do Santíssimo Sacramento. Chegava sempre precedido por uma procissão, na qual se entoavam cânticos piedosos e penitenciais. Caminhava a pé, rodeado de um grupo de sacerdotes que administravam os Sacramentos; quando mais velho, deslocava-se montado numa mula.


As multidões apinhavam-se para ouvi-lo; e para não ser espremido pela multidão que tentava tocar-lhe, andava rodeado por um grupo de homens que o encerravam num quadrilátero de madeira. Não podemos seguir São Vicente em todo o seu itinerário. Na verdade, não se tratava de um percurso ordenado, mas ele ia de um lugar a outro conforme as inspirações divinas e os pedidos que recebia. Voltou à Espanha em 1407.


Os flagelantes e a conversão dos muçulmanos e judeus


São Vicente Ferrer pregando aos judeus em Salamanca, por Alonso Antonio Villamor (1661-1729).
São Vicente Ferrer pregando aos judeus em Salamanca, por Alonso Antonio Villamor (1661-1729).

Granada estava então ocupada pelos mouros; São Vicente pregou nessa cidade, e conta-se que 8000 mouros pediram o batismo. Em Sevilha e Córdoba teve de pregar ao ar livre, porque não havia nenhuma igreja suficientemente grande para tão enorme auditório. O santo voltou a Valência depois de quinze anos de ausência; pregou, realizou muitos milagres e pôs fim às discórdias que dividiam a cidade.


“As populações se rendiam em massa diante dele nas cidades, nas quais as municipalidades regulavam a ordem de sua extraordinária estadia. Ele chegava, cercado por um grupo sempre crescente de discípulos. […] O grosso do contingente que o acompanhava era de mulheres e homens, em conjuntos devidamente separados. Essas pessoas constituíam o 'grupo dos flagelantes'”.

Os “flagelantes” não eram raros na Idade Média, quando a religião era tomada muito a sério, e era comum flagelarem-se até o sangue. O santo era seguido de cidade em cidade, às vezes por multidão de até dez mil fiéis


“Ele velava para que nada de escandaloso saísse dessas demonstrações e exercícios, dos quais se pode discordar, mas que, de si, nada têm de necessariamente repreensível”9


Com seu zelo verdadeiramente apostólico, queria atingir todos os pecadores. Nesse tempo havia na Espanha muitos judeus e muçulmanos, e segundo Ranzano, seu primeiro biógrafo, nas suas pregações na península hispânica (1410 a 1414) o santo converteu à fé de Cristo mais de 25 mil judeus, dentre eles 14 rabinos, e cerca de 18 mil mouros.


São Vicente afirma ser o anjo do apocalipse (14, 6)


Segundo uma carta dos magistrados de Orihuela, os efeitos de seus sermões foram maravilhosos: desapareceram da cidade o jogo, a blasfêmia e o vício; os inimigos se reconciliaram. Em Salamanca, São Vicente converteu muitos judeus; foi ali que, em um ardente sermão ao ar livre sobre seu tema favorito, declarou que ele era o anjo do juízo predito por São João (Apoc. XIV, 6). Como alguns de seus ouvintes se mostrassem incrédulos, o santo mandou que lhe trouxessem o cadáver de uma mulher e ordenou que desse testemunho da veracidade de suas palavras; a mulher ressuscitou por um momento, deu testemunho e voltou a fechar os olhos definitivamente. Quase é desnecessário advertir que São Vicente não pretendia ser de natureza angélica; suas palavras significavam que se considerava como mensageiro de Deus para anunciar a proximidade do fim do mundo.


Alguns milagres e profecias


São Vicente Ferrer, por Francesco del Cossa
São Vicente Ferrer, por Francesco del Cossa

Milagres portentosos acompanhavam a pregação do santo, e Ranzano afirma que ele operou em vida mais de 860 milagres. O Papa Pio II, na bula de canonização, afirma que ele 


“a muitos demônios expeliu dos corpos, a muitos surdos restituiu a audição, a muitos mudos a palavra; iluminou cegos, limpou leprosos, ressuscitou mortos, e deu saúde a outros que estavam afligidos por muitas enfermidades”.10


São Vicente Ferrer fez várias profecias, algumas delas realizadas ainda em seu tempo. Como já contamos acima, em Barcelona, em 1373, uma grande fome e carestia afligia a população. Quando esta chegou a um estado crítico, num sermão o santo predisse a chegada próxima de navios com trigo, o que realmente ocorreu. Narra um de seus biógrafos que, enquanto pregava em Saragoça, ele interrompeu o sermão e começou a chorar. Mais tarde revelou aos ouvintes que, naquela hora, sua mãe havia expirado em Valência. Ficara triste por tê-la perdido, mas alegrava-se, pois Deus lhe havia revelado que os santos anjos a haviam levado para o Céu.


Quando pregava em Alexandria de la Palla, na Lombardia, estava presente um jovem de Siena, Bernardino. Disse ele então aos seus ouvintes:


“Irmãos, trago-vos uma boa nova: sabei que neste auditório está um rapaz que será um grande lustre da Ordem de São Francisco e de toda a Itália, e luz da Igreja, a qual o honrará antes que a mim”.


Com efeito, São Bernardino de Sena foi canonizado em 1450, cinco anos antes dele.11


No dia 13 de setembro de 1403, referiu-se aos nossos tão decadentes dias: 


Virá um tempo como nunca se viu até agora: chorará a Igreja, as viúvas se levantarão ferindo os seus peitos e não encontrarão consolo; agora [este tempo] está distante, mas chegará sem falta e muito perto daquele tempo em que dois começarão a fazer-se reis: seus dias não se prolongarão muito. Chorai velhos e anciãos, suplicai, chorai se algum de vós fordes testemunha de um estrondo tão grande, de modo que não houve, nem haverá, nem se espera ver outro maior senão aquele que se experimentará no Juízo.  Mas a tristeza se converterá em deleite: o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, tudo purificará e renovará; a França, com seu orgulho, será de todo abatida, seu Príncipe, ai, ai, se os bandos [de malfeitores] os visse, ficariam cheios de terror. Ó miguelenses, ó catalães, à casa santa, às vossas e as de toda a Espanha: preveni e disponde-vos à justiça, pois os dias não tardarão e já estão às portas; vereis um sinal e não o conhecereis, mas advirto-vos que, naqueles tempos, as mulheres se vestirão como homens e se portarão segundo seu gosto e licenciosamente e os homens se vestirão vilmente como mulheres.12

Devoção a Santíssima Virgem Maria


Segundo o geral de seus biógrafos, a piedade de São Vicente era cristocêntrica. Como é de se supor, tendo o Filho como centro, ele não deixaria de ter a Santa Mãe de Deus na mais alta consideração. Assim, há muitos sermões do grande apóstolo sobre a Virgem Maria, todos de cunho popular, acessíveis ao geral de seus ouvintes, que muitas vezes eram rudes camponeses.


Como diz um dos seus biógrafos contemporâneos,


“não lhe interessava propor aos ouvintes as questões da Escola em termos técnicos, mas mover à devoção. […] não queria ser um tratadista de mariologia, mas um pregador da Virgem Maria, que para ele tinha o cúmulo de graças exigidas para a digna realização de suas funções de Mãe de Deus e dos homens”.


No início de todas as suas pregações, depois de citar um versículo do texto bíblico da Missa do dia, que seria tema de seu sermão, rezava também uma Ave Maria. A propósito da Assunção de Nossa Senhora ao Céu em corpo e alma, ele pregou em um dos seus sermões: 


“A Virgem Maria, levada ao Paraíso nos braços de seu Filho, vive na glorificação corporal dos santos. A glória do Paraíso não terá sua plenitude integral no corpo e alma até o dia do Juízo. As almas têm glorificação perfeita, mas não os corpos, exceto a Virgem Maria e Cristo, que têm esta plenitude de glória, pois estão em corpo e alma no Paraíso”.

O dogma da Assunção de Maria só foi proclamado em 1950 pelo Papa Pio XII.


Os últimos anos do santo


São Vicente Ferrer, o anjo do Apocalipse
São Vicente Ferrer, o anjo do Apocalipse

O santo passou os últimos três anos de sua vida na França, Bretanha e Normandia foram o cenário dos últimos trabalhos desse “legado ad latere de Cristo”. São Vicente estava já tão esgotado que mal podia mover-se sem ajuda; mas seu vigor e eloquência no púlpito eram os mesmos de seus primeiros anos. No início de 1419 voltou a Vannes já moribundo, depois de pronunciar uma série de sermões. Morreu na Quinta-feira da Paixão de 1419, aos setenta anos de idade. A veneração do povo foi imensa desde o primeiro momento, e São Vicente Ferrer foi canonizado em 1455.


A humildade de São Vicente foi extraordinária, considerando-se as honras e louvores que recebeu por toda parte. Para ele, sua vida não havia sido mais que uma cadeia ininterrupta de pecados. “Meu corpo e minha alma são uma pura chaga; tudo em mim cheira à corrupção por meus pecados e injustiças.” O mesmo acontece com todos os grandes santos: quanto mais próximos estão de Deus, mais vis se sentem.


H. Fages publicou em 1904 os depoimentos de 1453 e 1454 para o processo de canonização; em 1905 publicou outros documentos e em 1909 as obras de São Vicente; mas a biografia do mesmo autor (1901) está longe de corresponder às exigências críticas atuais. R. Chabas, na Revista de Archivos... 1902-1903, estuda outros materiais. O P. S. Hogan publicou em 1911 uma breve biografia em inglês, baseada na obra de Fages. Mais recentes são as biografias de R. Johannet (1930) e M. Gorce, 1924 e 1935, na coleção Les Saints. Sobre a obra de S. Brettle (1924), cf. Analecta Bollandiana, xliv (1926), pp. 216-218. Sobre os sermões de São Vicente em 1413, cf. Finke, Gustav Schnürer Festschrift (1930). Também fala muito sobre São Vicente a Histoire des Maîtres Généraux O.P. de Mortier (vol. IV). O estudo psicológico de H. Ghéon foi traduzido para o inglês.




Santa Catalina de Palma
Santa Catalina de Palma

Catalina Tomás, que nasceu no pequeno povoado de V1alldemossa e morreu em Palma, passou toda a sua vida na ilha de Maiorca. Seus pais morreram quando a menina, que era a sétima filha, tinha apenas sete anos, sem lhe deixar herança alguma. Contam-se coisas muito tristes dos maus-tratos que Catalina sofreu na casa do tio paterno, a cujo cuidado havia ficado; era praticamente uma escrava, a quem até os próprios criados podiam sobrecarregar de trabalho e maltratar à vontade. Catalina suportou esses sofrimentos com invencível paciência e mansidão. Quando tinha cerca de quinze anos, as aparições de Santo Antônio e de sua padroeira Santa Catarina despertaram nela a vocação religiosa. A jovem confiou seus desejos a um santo eremita, o P. Antônio Castañeda. Para provar sua vocação, o eremita lhe disse que continuasse recomendando o assunto a Deus e que ele faria o mesmo até obter resposta do Céu. Catalina obedeceu, mas teve de esperar muito tempo; a espera tornou-se ainda mais longa, pois o temor de perder seus serviços fez com que seu tio a maltratasse ainda mais do que antes. No entanto, o P. Antônio não a esqueceu, apesar da dificuldade de encontrar lugar em um convento para uma jovem sem dote. Para começar, o P. Antônio conseguiu que Catalina fosse servir a uma família em Palma, onde sua vida espiritual não encontraria oposição. A filha da casa ensinou-lhe a ler e escrever; porém, nas coisas da vida espiritual, tornou-se discípula de Catalina, pois esta já havia avançado muito no caminho da perfeição.


Vários conventos abriram suas portas a Catalina quase ao mesmo tempo, e a jovem decidiu ingressar no de Santa Maria Madalena de Palma, das Cônegas de Santo Agostinho. Tinha então vinte anos. Desde o primeiro momento, conquistou o respeito de todos por sua santidade, sua humildade e seu desejo de ser útil aos outros. Durante algum tempo, Catalina não se distinguiu em nada de suas fervorosas companheiras; mas logo foi objeto de uma série de fenômenos extraordinários, descritos detalhadamente em sua vida. Todos os anos, desde algumas semanas antes da festa de Santa Catarina de Alexandria, entrava em profundo êxtase. Imediatamente após comungar, sobrevivia-lhe uma espécie de arrebatamento que durava boa parte do dia, quando não vários dias e até duas semanas. Às vezes era como um estado cataléptico em que desaparecia todo sinal de vida; outras vezes, a santa avançava com os pés juntos e os olhos fechados, conversando com os espíritos celestiais e totalmente abstraída do mundo exterior. Apenas em alguns casos podia responder às perguntas que lhe eram feitas. Também possuía o dom de profecia.


Santa Catalina de Palma
Santa Catalina de Palma

A santa viu-se ainda submetida a terríveis provações e assaltos do inimigo. Não só teve de sofrer os maus pensamentos sugeridos pelo demônio, como também alucinações alarmantes e até ataques materiais do espírito maligno. Nessas ocasiões, suas irmãs ouviam gritos horríveis e ruídos, e observavam os efeitos dos ataques na santa, mas não viam o inimigo e tinham de contentar-se em tentar aliviar os sofrimentos de Catalina. A santa sempre procurou evitar que isso a impedisse de cumprir pontualmente seus deveres. Sua morte, que ela mesma havia predito, ocorreu quando tinha apenas quarenta e um anos de idade. Foi beatificada em 1792 e canonizada em 1930.


Na bula de canonização, Acta Apostolicae Sedis, vol. XXII, 1930, pp. 371-380, encontra-se um resumo da vida de Santa Catalina e uma narração detalhada dos milagres aprovados na última parte do processo. As primeiras biografias devem-se ao cônego Salvador Abrines, confessor de Santa Catalina, e ao P. Pedro Caldés. Nos documentos do processo, cuja primeira parte foi provavelmente impressa em 1669, há numerosas citações dessas biografias. Na época da beatificação, publicou-se em Roma uma obra intitulada Ristretto della Vita della Beata Catarina Tomas.13



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, p. 31.

2. Thomas J. Shahan, Council of Constance, TCE.

3. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, p. 33.

4. J. L. Martín Hernández, San Vincente Ferrer, in Gran Enciclopédia Rialp, Ediciones Rialp, S.A., Madri, 1975, tomo XXIII, p. 481.

5. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo IV, p. 221.

6. Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p. 52.

7. DTC col. 3031.

8. Id. col. 3037.

9. DTC cols. 3036-3037.

10. Pe. Pedro de Ribadenera, San Vicente Ferrer, Confessor, in La Leyenda de Oro, L. González Y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 28.

11. Id. Ib. p. 29.

12. Do livro Las profecias en relacion al estado actual y al destino futuro del mundo, sobre el fin de la revolución, imperio del gran monarca e triunfos de la iglesia catolica', cap. XLVIII, p. 176 - 177).

Partes do texto tirado artigo "São Vicente Ferrer — 600 anos da morte do “Anjo do Apocalipse”, Agência Boa Imprensa.

13. Butler, Alban. Vida dos Santos, sobre "Santa Catalina de Palma", vol. 2, 36-37.



Notas:


a. Durante o Cisma do Ocidente, a cristandade viu-se dividida entre diferentes obediências, o que levou inclusive homens santos, como São Vicente Ferrer, a reconhecerem como legítimos os antipapas de Avinhão, entre eles Clemente VII e Bento XIII. Tal adesão não decorreu de má-fé, mas da grande confusão canônica e política do período; posteriormente, o próprio santo contribuiu para a restauração da unidade, reconhecendo a legitimidade da linha romana iniciada por Urbano VI.


Do lado do verdadeiro Pontífice, Gregório XII, encontravam-se Santa Catarina de Siena, Santa Catarina da Suécia, o Beato Pedro de Aragão e a Beata Ursulina de Parma. No apoio ao antipapa Bento XIII destacavam-se São Vicente Ferrer, Santa Colete e o Beato Pedro de Luxemburgo.



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