Vida de São Vicente de Lérins e Beato João de Prado (24 de maio)
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Em suas duas obras, “Instructiones” e “De laude Eremi”, Santo Euquério de Lyon afirma que São Vicente de Lérins “se distinguia pela eloquência e pelo saber”. Crê-se que o santo era irmão de São Lupo de Troyes. Provavelmente havia sido soldado antes de tomar o hábito religioso na abadia de Lérins, situada em uma das ilhas da costa de Cannes, chamada atualmente São Honorato, em honra de seu fundador. Cerca de três anos após o término do Concílio de Éfeso, São Vicente compôs em Lérins, onde havia sido ordenado sacerdote e era monge, o “Commonitorium” contra as heresias, que o tornou famoso. Nessa obra, refere-se a si mesmo como um peregrino estrangeiro que, para fugir do mundo e de seus prazeres vãos e passageiros, entregou-se ao serviço de Cristo no retiro do mosteiro como o último dos monges. O santo observa que a leitura dos Santos Padres lhe permitiu reunir uma série de princípios ou critérios para distinguir a verdade cristã do erro, e que se deu ao trabalho de redigi-los, em primeiro lugar para seu próprio uso, e como auxílio para a memória. São Vicente desenvolveu suas primeiras notas em um tratado que constava de duas partes, sendo a segunda dedicada principalmente ao Concílio de Éfeso. Contudo, essa parte se perdeu talvez por roubo, e ele teve de contentar-se em acrescentar à primeira uma espécie de resumo ou recapitulação. Na obra de São Vicente, composta de quarenta e dois breves capítulos e que São Roberto Belarmino qualificava como “pequena pelo conteúdo e grande pelo valor”, encontra-se pela primeira vez enunciado o princípio de que, para afirmar que uma verdade pertence à doutrina católica, ela deve ter sido sustentada sempre e em toda parte por todos os fiéis: “quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est”. [“Aquilo que foi crido em toda parte, sempre e por todos.”]

Portanto, os pontos duvidosos devem ser resolvidos aplicando esse critério de universalidade, antiguidade e unanimidade, o que equivale, na prática, a provar que a maioria dos bispos e doutores sustentou unanimemente tal verdade. A Bíblia não pode ser o único critério da verdade, porque está sujeita a diferentes interpretações e é citada tanto por ortodoxos quanto por heterodoxos; assim, a única interpretação autorizada é a da tradição da Igreja, pois somente ela tem o direito de interpretá-la. Quando surge uma nova doutrina, é preciso confrontá-la com a doutrina universal da Igreja; se não for possível aplicar esse critério devido à difusão da heresia em certo período histórico, deve-se recorrer à doutrina da Igreja primitiva. E se já na Igreja primitiva esse erro havia começado a se difundir, o problema deve ser resolvido com base na fé da maioria. São Vicente admite o progresso dogmático,[a] mas afirma que ele só é legítimo quando conserva a identidade e todas as características essenciais, como a árvore em relação à semente e o ser humano em relação à célula germinal. A principal tarefa dos Concílios consiste em esclarecer, definir e sublinhar as doutrinas que a Igreja universal ensinou, creu e praticou desde sua origem. A autoridade da Sé Apostólica sustenta o testemunho dos Padres, dos Doutores e dos Concílios.
Existe uma vasta literatura sobre o Commonitorium de São Vicente, e os juízos dos autores são muito diversos. O tratado foi escrito em uma época em que a controvérsia sobre a graça e a liberdade estava em pleno auge, sobretudo no sul da França, e muitos autores consideram a obra de São Vicente como um ataque velado contra o predestinacionismo exagerado da doutrina de Santo Agostinho. Para sustentá-lo, argumentam que, quando surgiu o Commonitorium, o abade de Lérins e muitos monges eram semipelagianos; que São Vicente emprega em várias passagens essa terminologia; e que a célebre defesa do agostinianismo publicada por São Próspero de Aquitânia refutava objeções de um certo Vicente, identificado por esses autores com São Vicente de Lérins. Contudo, o nome Vicente era comum; além disso, embora use em alguns trechos terminologia semipelagiana, outras partes de sua obra recordam tanto os termos do Credo de Santo Atanásio que alguns chegaram a atribuir esse documento ao próprio São Vicente. Seja como for, a questão do semipelagianismo não está totalmente resolvida; mas, se o santo errou nesse ponto, errou na companhia de muitos homens de Deus. Ignora-se a data exata de sua morte, mas deve ter ocorrido por volta de meados do século V.
Sabemos muito pouco sobre a vida de São Vicente de Lérins. O breve relato do Acta Sanctorum (maio, vol. V) baseia-se principalmente no De viris illustribus de Genádio de Marselha. Veja-se também DCB., vol. IV, pp. 1154-1158; Dictionnaire Apologétique, vol. IV, col. 1747-1754; e Historisches Jahrbuch, vol. XXIX (1908), pp. 583 ss. Em francês, existe uma excelente tradução do Commonitorium, feita por Labriolle e H. Brunétière (1906).1
BEATO JOÃO DE PRADO, MÁRTIR (1613 d.C.)

Um dos mais célebres Frades Menores da Observância foi o Beato João de Prado, que conquistou a coroa do martírio em Marrocos, no século XVII, como haviam feito aqueles primeiros franciscanos, como o Beato Berardo e seus companheiros no século XIII. O beato pertencia a uma nobre família espanhola de Mogrovejo, em Leão. Depois de estudar na Universidade de Salamanca, tomou o hábito de São Francisco em 1548. Desde o momento em que recebeu as ordens sagradas, pediu a seus superiores que o enviassem para evangelizar os pagãos. No entanto, antes de partir para as missões, teve de pregar em sua pátria e exercer os ofícios de mestre de noviços e guardião em vários conventos. Embora fosse extraordinariamente devoto e humilde, o beato foi caluniado e o provincial o destituiu do cargo de superior. João aceitou isso com total resignação, dizendo: “Deus quer que eu sofra. Faça-se a sua vontade. O único que me entristece é o escândalo que isso pode causar nos fracos e o descrédito que possa trazer à nossa ordem.” Depois de algum tempo, ficou provada a inocência do beato, que, em 1610, foi nomeado provincial da nova Província de São Diego.
Três anos mais tarde, uma intensa epidemia de peste dizimou todos os franciscanos que trabalhavam nas missões de Marrocos. Como o período de seu provincialato estava chegando ao fim, o Beato João pediu que o enviassem para socorrer os cristãos daquela região. O Papa Urbano VIII o nomeou missionário apostólico e lhe concedeu poderes especiais. Acompanhado pelo Pe. Matias e pelo irmão Genésio, João de Prado embarcou rumo a Marrocos, onde começou imediatamente a trabalhar entre os escravos cristãos.

Embora tenham recebido ordem de deixar o país, os missionários continuaram administrando os sacramentos aos fiéis e reconciliando os apóstatas. Por isso, foram presos em Marrakech e condenados a moer salitre para a fabricação de pólvora. Pouco depois, compareceram diante do sultão; como defenderam corajosamente a fé, este ordenou que fossem açoitados e lançados novamente na prisão. Na segunda vez em que o Beato João compareceu diante do sultão, ignorou-o e pregou a alguns apóstatas que estavam na sala.
Então, Muley-al-Walid derrubou o missionário com um golpe e o traspassou com duas flechas; em seguida, deu ordem para que o lançassem à fogueira antes que morresse. Em meio às chamas, o servo de Deus continuava pregando aos verdugos, até que um deles lhe esmagou o crânio com uma pedra. João de Prado foi beatificado em 1728. É um dos poucos beatos mencionados no Martirológio Romano.
Ver P. P. Ausserer, Seraphisches Martyrologium (1880); Léon, Auréole Séraphique (trad. ingl.), vol. 11, pp. 292-296; F. Fernández y Romeral, Los Franciscanos en Marruecos (1921); e H. Koehler, L'Eglise chrétienne du Maroc... (1934), pp. 65-83.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 364-366.
2. Ibid. pp. 367-368.
Notas:
a. São Vicente admite um certo desenvolvimento na compreensão da doutrina, mas não uma mudança de sentido do dogma, que permanece imutável em sua substância. Sobre isso, a Igreja ensina que o dogma não muda de sentido: Concílio Vaticano I, sob o pontificado do Papa Pio IX, declara: “deve-se sempre ter por verdadeiro sentido dos dogmas aquele que a Santa Madre Igreja uma vez tenha declarado, não sendo jamais permitido afastar-se deste sentido sob o pretexto de uma compreensão mais profunda”. E ainda: “Se alguém disser que […] se pode atribuir aos dogmas […] um sentido diverso […] seja anátema.”






















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