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Vida de São João de Deus e São Julião de Toledo (8 de março)

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Retrato de São João de Deus, por Bartolomé Esteban Murillo
Retrato de São João de Deus, por Bartolomé Esteban Murillo

São João nasceu em Portugal. Passou sua primeira juventude em Castela, a serviço de um alto funcionário do conde de Oropesa. Em 1522, fez parte do exército do conde e lutou ao lado dos espanhóis contra os franceses e depois, na Hungria, contra os turcos. Sua amizade com os companheiros licenciosos do exército levou-o, pouco a pouco, ao abandono da prática da religião e caiu em pecados muito graves. Quando o exército se dispersou, João foi parar na Andaluzia, onde entrou a servir como pastor na casa de uma nobre sevilhana. Por volta dos quarenta anos de idade, atormentado pelos remorsos de sua vida passada, decidiu mudar e começou a pensar qual seria a melhor maneira de consagrar-se a Deus. Compadecido dos aflitos, decidiu ir à África para socorrer os escravos cristãos, com a esperança de alcançar a coroa do martírio. Em Gibraltar conheceu um cavaleiro português que havia sido desterrado para Ceuta e se dirigia para lá com sua esposa e seus filhos. João compadeceu-se deles e entrou gratuitamente a seu serviço. O cavaleiro adoeceu em Ceuta, e João teve de trabalhar como operário para ganhar algum dinheiro com que ajudar a família. A apostasia de um de seus companheiros de trabalho impressionou muito João. Por outro lado, seu confessor deu-lhe a entender que buscar o martírio era uma ilusão do demônio. Isso levou o santo a voltar para a Espanha.


Em Gibraltar ocorreu-lhe que, como vendedor ambulante de imagens e livros piedosos, poderia fazer o bem a seus clientes. O negócio prosperou e em 1538, aos quarenta e três anos de idade, João pôde abrir uma loja em Granada. Ora, no dia de São Sebastião, que era uma das grandes festas da cidade, o famoso João de Ávila chegou para pregar e, entre a multidão que acudiu para ouvi-lo, encontrava-se João. O sermão tocou-lhe tão profundamente a alma que começou a implorar em voz alta a misericórdia divina, batendo no peito; saiu correndo pelas ruas como um louco, arrancando os cabelos; as pessoas apedrejaram-no e zombaram dele; João chegou a sua casa em estado lamentável. Depois de distribuir toda a sua mercadoria, começou a vaguear pelas ruas, absorto em seus pensamentos, até que as pessoas o conduziram ao Beato João de Ávila. O santo pregador conversou com ele em particular, deu-lhe alguns conselhos e prometeu sua ajuda. Isso pacificou João durante algum tempo; mas logo voltou a comportar-se de maneira extravagante e foi necessário encerrá-lo em um manicômio. Como é bem sabido, naquela época empregavam-se os métodos mais brutais para curar os doentes mentais. Quando chegou aos ouvidos do Beato João de Ávila a notícia do ocorrido, foi ver seu penitente e disse-lhe que já havia praticado suficientemente aquela penitência singular e que faria bem em ocupar-se com algo que redundasse em maior proveito espiritual para si e maior bem para o próximo. A exortação acalmou instantaneamente João, para grande surpresa de seus guardas; mas ele permaneceu no hospital até o dia de Santa Úrsula de 1539, cuidando dos enfermos.


São João de Deus. Gravura de C. Galle
São João de Deus. Gravura de C. Galle

Ao sair do hospital, estava decidido a fazer algo pelos pobres. Assim, começou a vender lenha no mercado para dar de comer aos famintos. Pouco depois, alugou uma casa para abrigar os doentes pobres, aos quais servia e alimentava com tal zelo, prudência e economia, que era a admiração de toda a cidade. Esses foram os primeiros passos na fundação da Ordem dos Irmãos de São João de Deus, que atualmente exercem seu ministério em toda a cristandade. João passava o dia inteiro cuidando dos enfermos; à noite saía para procurar novos pacientes. Como as pessoas começaram espontaneamente a levar-lhe tudo o que era necessário para sustentar seu pequeno hospital, João já não teve de sair a pedir esmolas de porta em porta. O arcebispo de Granada, que via com bons olhos a obra, favoreceu-a com grandes somas de dinheiro. Seu exemplo animou outros e a modéstia e paciência do santo, assim como sua extraordinária habilidade, contribuíram muito para tornar popular o hospital. O bispo de Tuy convidou São João para comer; as respostas deste às suas perguntas impressionaram favoravelmente o prelado, por sua sabedoria e bom senso. O bispo deu-lhe o nome de “João de Deus” e impôs-lhe uma espécie de hábito, embora o santo não tivesse pensado até então em fundar uma ordem religiosa. As regras que levam seu nome foram redigidas seis anos depois de sua morte. Os votos religiosos só foram introduzidos em 1570, isto é, vinte anos depois da morte do fundador.


Para provar o desinteresse do santo, o marquês de Tarifa disfarçou-se de mendigo e foi pedir-lhe esmola; São João deu-lhe vinte e um ducados, que era tudo o que possuía. O marquês não só lhe devolveu essa quantia, mas também lhe deu 150 coroas de ouro e, durante sua estadia em Granada, enviou diariamente ao hospital pão, cordeiros e frangos. São João era muito generoso, não apenas no que se refere ao dinheiro, mas de todas as maneiras possíveis. Durante um incêndio no hospital, o santo carregou nos braços os doentes para salvá-los. Embora tenha tido de entrar muitas vezes entre as chamas, saiu completamente ileso. Seu coração não tinha preferências, de modo que sua caridade não se limitava ao hospital; pelo contrário, o santo sentia-se obrigado a socorrer todos os aflitos. Para isso, informava-se cuidadosamente sobre todos os necessitados da província; a alguns assistia em sua própria casa, a outros conseguia trabalho. Assim, com singular tato e prudência, pôde remediar as necessidades de inúmeros membros de Cristo. Interessava-se particularmente pelas jovens abandonadas para protegê-las das tentações às quais se viam forçadas a se expor.


São João de Deus. Gravura colorida de P. de Colle segundo N. Cavalli depois de P. Novelli.
São João de Deus. Gravura colorida de P. de Colle segundo N. Cavalli depois de P. Novelli.

Mas isso não era tudo: com o crucifixo na mão, São João ia em busca dos pecadores mais endurecidos e os exortava com muitas lágrimas a se arrependerem. Essa vida de atividade contínua era acompanhada de oração constante e penitências corporais. Êxtases frequentes e espírito de contemplação coroavam as virtudes do santo; mas a maior de suas qualidades era indubitavelmente sua extraordinária humildade na ação, que se manifestou sobretudo em meio às honras que lhe prodigalizava a corte de Valladolid, quando os negócios obrigavam o santo a ir até lá.


Consumido por dez anos de trabalho incansável, São João caiu doente. A causa imediata da enfermidade foi o esforço sobre-humano que fez o servo de Deus para salvar os móveis e objetos domésticos dos pobres e resgatar um homem que se estava afogando durante uma inundação. O santo tentou ocultar os primeiros sintomas de sua doença para não se ver obrigado a interromper o trabalho. Ao mesmo tempo, revisou cuidadosamente o inventário dos bens e as contas do hospital, assim como as regras, os horários e as prescrições sobre os exercícios de devoção. Por essa época mandou chamá-lo o arcebispo, pois havia recebido queixas de que o santo abrigava vagabundos e mulheres de má vida. Ao ouvir essas acusações, São João caiu de joelhos aos pés do prelado e disse:


“O Filho do Homem veio salvar os pecadores e nós somos obrigados a seguir o seu exemplo. Eu não sou fiel à minha vocação, pois não sigo suficientemente o seu exemplo; mas confesso a Vossa Excelência que no hospital não há ninguém pior do que eu, que sou indigno de comer o pão dos pobres.”


O santo disse isso com tal acento de sinceridade que o arcebispo o despediu respeitosamente, deixando o assunto a seu critério.


Passamento de São João de Deus, Juan Zapaca Inga (atribuído), ativo em Cusco, 1684–1685 — pintor peruano.
Passamento de São João de Deus, Juan Zapaca Inga (atribuído), ativo em Cusco, 1684–1685, pintor peruano.

Quando os sintomas da doença se agravaram, o santo já não pôde ocultá-los por mais tempo. A notícia propagou-se rapidamente. Dona Ana Osorio foi em sua carruagem visitá-lo; encontrou-o deitado em sua estreita cela, revestido com seu hábito; um velho casaco servia-lhe de cobertor e, à cabeceira, havia um cesto. A boa dama, cujo espírito prático igualava a sua bondade, enviou um mensageiro ao arcebispo, que imediatamente enviou a São João a ordem de obedecer a Dona Ana como a ele mesmo. Valendo-se de sua autoridade, a dama conseguiu que ele abandonasse o hospital. O santo nomeou superior a Antônio Martín e foi fazer uma visita ao Santíssimo Sacramento antes de sair; a visita prolongou-se até que Dona Ana ordenou a seus criados que carregassem o santo nos braços até o coche e o conduzissem à sua casa. Ali ela se encarregou de cuidar dele com grande delicadeza. São João queixava-se de que o Salvador na cruz havia bebido somente fel, enquanto um miserável pecador como ele tinha todos os alimentos desejáveis. Os magistrados pediram-lhe que abençoasse a cidade. O santo recusava-se a fazê-lo, dizendo que seus pecados eram o escândalo da cidade, mas que pediria por seus irmãos os pobres e por todos os que lhe haviam prestado algum serviço. Finalmente, a pedido do arcebispo, abençoou a cidade. São João de Deus morreu ajoelhado diante do altar, em 8 de março de 1550, quando tinha exatamente cinquenta e cinco anos de idade. O arcebispo presidiu seu enterro e todo o povo de Granada acorreu em procissão.


A canonização ocorreu em 1690. Em 1886, o Papa Leão XIII, como diz o Martirológio Romano, “declarou-o patrono de todos os hospitais e enfermos”, juntamente com São Camilo de Lellis. Em 1930, o Papa Pio XI nomeou também patronos outros santos enfermeiros e enfermeiras. Os livreiros e impressores honram também de modo especial São João de Deus, pelos anos em que exerceu esse ofício.



São João de Deus. Gravura de Benedict Fariat segundo L. Baldus.
São João de Deus. Gravura de Benedict Fariat segundo L. Baldus.

Os fatos foram tomados da biografia escrita por Francisco de Castro, reitor do hospital de São João, em Granada, cerca de vinte anos após a morte do fundador. Essa biografia, substancialmente fidedigna, escrita originalmente em castelhano, encontra-se em latim nos Acta Sanctorum (março, vol. 1). Atualmente existem numerosas adaptações dessa vida. As mais conhecidas são as de A. de Govea (1624) e L. del Pozo (1908), em espanhol, e as de Sagnier (1877) e R. Meyer (1897), em francês. Em inglês apareceu, em 1847, uma tradução da biografia de G. de Villethierri na Oratorian Series, à qual se seguiram a de E. Baillon (1884), a de M. e F. Leonard e a de N. McMahon (1952). Cf. também Heimbucher, Die Orden und Kongregationen, vol. III, pp. 245-251, que narra em detalhe o desenvolvimento do instituto fundado por São João. As imagens geralmente representam o santo com um fruto e uma pequena cruz; o fruto é uma romã e simboliza a cidade de Granada. Trata-se de uma alusão à aparição em que o Menino Jesus disse a São João: “Em Granada encontrarás a tua cruz.”1




São Juliano, por Juan de Borgoña. Pintura na Sala Capitular da Catedral de Toledo
São Juliano, por Juan de Borgoña. Pintura na Sala Capitular da Catedral de Toledo

São Julião, arcebispo de Toledo, à sua morte no ano 690 era a personagem mais importante da Espanha. Diz-se que era descendente de judeus, mas seus pais eram cristãos. Recebeu o batismo na principal igreja de Toledo, segundo conta seu sucessor na sede episcopal, que escreveu uma breve biografia do santo. O jovem foi educado por outro prelado de Toledo, São Fugenio II, e teve por companheiro o famoso Gudila Levita. Unidos pelos gostos comuns tanto quanto pelo afeto, os amigos consagraram-se à oração e ao estudo no retiro e, muito em breve, o zelo apostólico os fez voltar ao mundo para tentar a conversão dos pecadores. São Julião, que era teólogo destacado e homem de grande saber, chegou logo a ocupar um posto importante. Quando os médicos deram Wamba, o último dos reis visigodos, por desenganado, São Julião raspou-lhe a cabeça e revestiu-o com o hábito monástico para que “morresse em religião”. Ainda se conserva a vida do rei Wamba, escrita por São Julião, muito apreciada pelos historiadores, que encontram nesse documento uma ideia completa sobre o reinado de Wamba, o que não acontece com seus predecessores nem com seus sucessores.


Julião foi consagrado bispo de Toledo em 680 e parece que governou sua diocese com o mesmo acerto que o havia caracterizado nos assuntos seculares. Seu biógrafo narra que o Céu o havia adornado com todas as graças da alma e do corpo. Era tão bondoso que ninguém se aproximava dele sem receber grande consolação. O santo presidiu vários sínodos e obteve para sua sede a primazia sobre todas as dioceses espanholas. Por isso se lhe dá o título de arcebispo de Toledo, embora o termo não fosse geralmente empregado na Espanha naquela época. Historiadores posteriores acusam Julião de ter incentivado os reis a perseguirem os judeus. Contudo, deve-se notar que a lei mais cruel e escandalosa contra os judeus só foi publicada cinco anos depois da morte do santo. Segundo essa lei, todos os judeus adultos deveriam ser vendidos como escravos, enquanto seus filhos seriam confiados, a partir dos sete anos de idade, a famílias espanholas para receber educação cristã.


São Julião de Toledo, atribuído ao Mestre Coteta, Espanha (Aragão)
São Julião de Toledo, atribuído ao Mestre Coteta, Espanha (Aragão)

São Julião foi escritor muito fecundo: entre suas obras conta-se um estudo da liturgia moçárabe de sua época, um livro contra os judeus e os três volumes dos “Prognósticos”, que tratam das realidades últimas. O santo sustenta nessa obra que o amor e o desejo de reunir-se com Deus bastam para vencer o temor natural da morte.


Também afirma que os bem-aventurados intercedem por nós no Céu, que desejam nossa felicidade e que veem nossas ações, seja na própria essência de Deus, seja por meio do ministério dos anjos, que são os mensageiros de Deus na terra.


A breve biografia escrita por Félix, sucessor de São Julião na sede de Toledo, é nossa principal fonte de informação. Ver Acta Sanctorum, março, vol. 1. Também fornecem algumas notícias sobre o santo as crônicas da época e as atas dos concílios que ele presidiu.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 492-495.

2. Ibid. pp. 497-498.



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