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Vida de São Cirilo de Alexandria e Santa Apolônia, Mártir (9 de fevereiro)





Afresco de São Cirilo de Alexandria na igreja de São Salvador em Chora, Constantinopla (Istambul)
Afresco de São Cirilo de Alexandria na igreja de São Salvador em Chora, Constantinopla (Istambul)

São Cirilo foi chamado de Doutor da Encarnação, assim Santo Agostinho recebeu o título de Doutor da Divina Graça. Na Missa síria e maronita é comemorado como “torre da verdade e intérprete do Verbo de Deus feito carne”. Durante toda a sua vida, apegou-se à regra de nunca promover doutrina alguma que não tivesse aprendido dos antigos Padres, mas seus livros contra Juliano, o Apóstata, demonstram que também havia lido escritores profanos. Ele mesmo dizia frequentemente que descuidava da eloquência humana, e certamente é de lamentar que não tenha cultivado um estilo mais claro e que tivesse escrito em um grego mais puro. Com a morte de seu tio Teófilo, em 412, foi elevado à sé de Alexandria. Começou a exercer sua autoridade mandando fechar as igrejas dos novacianos e apoderando-se de seus vasos sagrados, ação condenada pelo historiador eclesiástico Sócrates; não sabemos as razões que teve para agir dessa maneira. Em seguida expulsou os judeus, que eram numerosos e haviam gozado de privilégios na cidade desde os tempos de Alexandre, o Grande. Tomou essa medida por causa da atitude sediciosa e de vários atos de violência cometidos por eles; embora tenha tido a aprovação do imperador Teodósio, isso exasperou Orestes, o governador. Essa infeliz desavença com Orestes acarretou graves dificuldades. Havia uma mulher pagã, Hipátia, de caráter nobre, que naquele tempo era a professora de filosofia mais influente em Alexandria. Sua fama era tão grande que discípulos vinham a ela de todas as partes. Entre seus discípulos contava-se o grande bispo Sinésio, que lhe apresentava suas obras para que ela as criticasse. Era muito respeitada pelo governador, que a consultava inclusive em assuntos da administração civil. Em nenhum lugar havia um populacho tão indômito, mais inclinado a desordens e atos de violência, quanto em Alexandria. Tendo surgido entre eles a suspeita de que Hipátia havia instigado o governador contra seu bispo, a plebe a atacou nas ruas (ano 424), arrancando-a de sua carruagem e despedaçando seu corpo, para imensa dor e escândalo de todos os bons, particularmente de Cirilo. Apenas outro fato conhecemos referente a esse primeiro período de seu episcopado. Haviam-se enraizado certos preconceitos contra São João Crisóstomo, desde quando esteve com Teófilo no Sínodo do Carvalho; Cirilo tinha algo da obstinação de seu tio e não era fácil induzi-lo a incluir o nome de Crisóstomo nos dípticos da Igreja de Alexandria.


No ano de 428, Nestório, um sacerdote monge de Antioquia, foi eleito arcebispo de Constantinopla. Ele ensinava, assim como alguns de seu clero, que havia duas pessoas distintas em Cristo, a de Deus e a de homem, unidas apenas por uma união moral; segundo eles, Deus-Cabeça (Deus como parte superior ou principal) habitava na humanidade meramente como em seu templo. Consequentemente, negava a Encarnação de Deus feito homem. Também dizia que não se devia chamar a Santíssima Virgem Mãe de Deus, mas apenas mãe do homem Cristo, cuja humanidade era somente o templo da divindade e não uma natureza hipostaticamente unida à Pessoa divina. Suas homilias resultaram muito ofensivas e suscitaram protestos de todos os lados contra os erros que continham. São Cirilo lhe enviou uma admoestação suave, mas Nestório lhe respondeu com altivez e desprezo. Ambas as partes apelaram ao Papa São Celestino I, que, após examinar a doutrina em um concílio em Roma, a condenou e pronunciou sentença de excomunhão e destituição contra Nestório, a menos que, nos dez dias seguintes, a partir da data em que recebesse aviso da sentença, se retratasse de seus erros. São Cirilo, que foi designado para assegurar o cumprimento da sentença, enviou a Nestório, com sua terceira e última citação, doze proposições com anátemas que ele deveria assinar como prova de sua ortodoxia. Nestório, porém, mostrou-se mais obstinado do que nunca.[a]


São Cirilo de Alexandria, por Emmanuel Tzanes
São Cirilo de Alexandria, por Emmanuel Tzanes

Isso deu ocasião à convocação do terceiro concílio geral, que se celebrou em Éfeso, em 431, ao qual assistiram duzentos bispos, com São Cirilo à frente, como bispo de maior idade e representante do Papa Celestino. Nestório estava na cidade, mas recusou-se a comparecer; então, após a leitura de seus sermões e de outras provas recebidas contra ele, suas doutrinas foram condenadas e pronunciou-se a sentença de excomunhão e destituição. Seis dias depois chegaram a Éfeso o arcebispo João de Antioquia, com quarenta e um bispos que não haviam podido chegar a tempo. Eles eram favoráveis a Nestório, embora não compartilhassem seus erros, dos quais certamente o consideravam inocente. Em vez de se associarem ao concílio, reuniram-se à parte e tiveram a presunção de destituir São Cirilo, acusando-o, por sua vez, de heresia. Ambos os partidos apelaram ao imperador, que ordenou que Cirilo e Nestório fossem presos e colocados em custódia. Quando chegaram os três legados do Papa Celestino, a situação tomou outro rumo. Após cuidadosa consideração do que havia sido feito, os legados confirmaram a condenação de Nestório, aprovaram a conduta de Cirilo e declararam nula e inválida a sentença pronunciada contra ele. Assim, foi honrosamente reabilitado e, embora os bispos da província de Antioquia tenham continuado seu cisma por algum tempo, reconciliaram-se com São Cirilo em 433, condenaram então Nestório e deram uma declaração clara e ortodoxa de sua própria fé. Nestório retirou-se para seu antigo mosteiro em Antioquia, mas depois foi desterrado para o deserto egípcio.


São Cirilo, que assim triunfou da heresia por sua intrepidez e coragem, passou o restante de sua vida sustentando a fé da Igreja e trabalhando nas tarefas de sua sé, até sua morte em 444. Os alexandrinos lhe deram o título de Mestre do Mundo, enquanto o Papa Celestino o chamava de “generoso defensor da fé católica” e “homem apostólico”. Foi homem de caráter forte e impulsivo, valente, mas às vezes demasiado veemente e até violento. O abade Chapman comentou que, com mais paciência e diplomacia de sua parte, teria sido evitado o surgimento da Igreja nestoriana, que por muito tempo foi uma potência no Oriente. Contudo, devemos agradecer-lhe a posição firme e inflexível que tomou a respeito do dogma da Encarnação, atitude que levou às declarações claras do grande concílio que presidiu. Embora desde seu tempo o nestorianismo e o pelagianismo tenham tentado levantar a cabeça sob diferentes nomes em várias regiões do mundo, nunca mais chegaram a ser uma verdadeira ameaça para a Igreja Católica. Devemos agradecer a Cirilo o fato de que, em nossas gerações, não haja dúvida alguma sobre o que devemos crer a respeito do mistério sobre o qual fundamentamos nossa fé como cristãos. Foi declarado Doutor da Igreja Universal em 1882, e no décimo quinto centenário de sua morte, em 1944, o Papa Pio XII escreveu a encíclica “Orientalis Ecclesiae”, sobre “esta luminária da sabedoria cristã e valente herói do apostolado”.

Santo Atanásio e São Cirilo de Alexandria (Menológio de Basílio II)
Santo Atanásio e São Cirilo de Alexandria (Menológio de Basílio II)

A grande devoção que este santo teve ao Santíssimo Sacramento manifesta-se pela frequência com que sublinha os efeitos que ele produz naqueles que o recebem dignamente. Afirma com ênfase que, pela Sagrada Comunhão, formamos um só corpo com Cristo, e certamente deve ser difícil para os que possuem a mesma fé definida nos seis primeiros concílios gerais fechar os olhos diante da evidente convicção com que São Cirilo afirmava sua doutrina eucarística antes do ano 431. Em uma carta a Nestório, que recebeu o beneplácito geral e oficial dos Padres de Éfeso, escrevia:


“Proclamando a morte segundo a carne do Filho unigênito de Deus, gerado, isto é, Jesus Cristo, e confessando sua Ressurreição dentre os mortos e sua Ascensão ao Céu, celebramos o sacrifício incruento em nossas igrejas; e assim nos aproximamos das realidades místicas e nos santificamos pela participação da Carne sagrada e do Sangue precioso de Cristo, Salvador de todos nós. E o recebemos, não como carne ordinária (que Deus não o permita), nem como carne de um homem santificado e associado ao Verbo segundo uma unidade de rito, ou possuindo um habitante divino, mas realmente como a verdadeira carne do próprio Verbo” (Migne, PG., LXXXVI, 113).


E a Calosírio, bispo de Arsinoé, escreveu:


“Ouvi dizer que a consagração sacramental não aproveita para a santificação se uma porção da mesma é guardada para outro dia. Ao dizer isso, erram. Pois Cristo não se altera, nem seu Corpo sagrado se transforma; mas a virtude da consagração e a graça que dá vida permanecem ainda nela (Migne, PG., LXXVI, 1073).


Nosso conhecimento de São Cirilo deriva-se principalmente de seus próprios escritos e dos escritores eclesiásticos Sócrates, Sozômeno e Teodoreto. O aspecto de sua vida e obra apresentado por Butler é o aspecto tradicional, e aqui não fazemos referência às discussões que, principalmente em razão da descoberta da obra conhecida como The Bazaar of Heracleides, se travaram desde então sobre Nestório e seus ensinamentos. Existe abundante literatura sobre São Cirilo. Encontrar-se-á uma exposição suficiente nos dois artigos do DTC., Cyrille d’Alexandrie e Éphèse, Concile de, bem como na Patrology de Bardenhewer. Veja-se também Duchesne, Histoire ancienne de l’Église, vol. II (tradução inglesa); Abade Chapman na Catholic Encyclopedia, vol. IV, pp. 592-595; e A. Fortescue, The Greek Fathers (1908).1




Santa Apolônia, por Artemisia Gentileschi
Santa Apolônia, por Artemisia Gentileschi

São Dionísio de Alexandria escreveu a Fábio, bispo de Antioquia, um relato sobre a perseguição dos cristãos pelo populacho pagão de Alexandria, no último ano do reinado do imperador Filipe. A primeira vítima de sua fúria foi um ancião venerável chamado Metras ou Metrius, a quem tentaram obrigar a proferir blasfêmias contra Deus. Quando se recusou, açoitaram-no, cravaram-lhe lascas de cana nos olhos e o mataram a pedradas.


A pessoa seguinte que prenderam foi uma mulher cristã chamada Quinta, a quem levaram a um de seus templos para forçá-la a adorar o ídolo. Ela se dirigiu ao falso deus com palavras de desprezo que tanto exasperaram o povo, que a arrastaram pelos calcanhares sobre o calçamento, a açoitaram e lhe deram morte a pedradas.


Naqueles dias, os amotinados haviam chegado ao cúmulo de sua fúria. Os cristãos não ofereciam resistência, mas fugiam, abandonando todos os seus bens, sem se queixar, porque seus corações estavam desapegados da terra. Sua constância era tão geral que São Dionísio não soube de nenhum que tivesse renunciado a Cristo. Apoderaram-se de Apolônia, uma diaconisa de idade avançada. Com golpes no rosto, arrancaram-lhe todos os dentes e, depois, acendendo uma grande fogueira fora da cidade, ameaçaram lançá-la nela se não pronunciasse certas palavras ímpias. Ela lhes rogou que lhe dessem alguns momentos de trégua, como se fosse considerar a proposta; depois, para convencer seus perseguidores de que seu sacrifício era perfeitamente voluntário, tão logo a deixaram livre, lançou-se nas chamas. Em seguida descarregaram sua fúria sobre um santo homem chamado Serapião e o atormentaram em sua própria casa; depois o lançaram de cabeça do alto do terraço.


O Martírio de  Santa Apolônia, por Reni
O Martírio de Santa Apolônia, por Reni

Na maioria das regiões da Igreja ocidental encontram-se igrejas e altares dedicados em honra de Santa Apolônia, mas ela não é venerada em nenhuma igreja oriental, embora tenha sofrido em Alexandria. Santo Agostinho explica por que razão antecipou sua morte. O santo supõe que agiu por uma direção particular do Espírito Santo, porque de outro modo não seria lícito fazê-lo; ninguém pode apressar o próprio fim.


Ela é invocada contra a dor de dentes e todas as enfermidades dentárias, e é representada com um par de alicates segurando um dente, ou então distinguida por um dente de ouro pendente de seu colar.


Eusébio inclui em sua história a declaração de São Dionísio de Alexandria (VI, 41). Veja-se também o Acta Sanctorum, fevereiro, vol. II; de Künstle, Ikonographie, pp. 90-93, onde se encontrará uma excelente bibliografia que trata principalmente das representações artísticas de Santa Apolônia; Il martirio di S. Apollonia (1934), por G. B. Poletti, um cirurgião-dentista. Cf. também um artigo de H. Nux na Revue d’odontologie, vol. II (1947), pp. 113 ss., e do P. M. Coens na Analecta Bollandiana, vol. LXX (1952), pp. 138-159, onde se apresentam algumas referências bibliográficas recentes. Há uma revista periódica dos dentistas em Boston, EUA, intitulada The Apollonian.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 293-296.

2. Ibid. pp. 296-297.



Notas:


a. É discutível se Nestório sustentava todas as opiniões que lhe são atribuídas; em todo caso, foi ele quem deu origem à heresia que leva o seu nome.



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