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Vida de São Simplício de Autun e os Mártires de Nero (24 de junho)

  • 24 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura




“As tochas de Nero”, por Henryk Siemiradzki. Em latim, uma inscrição diz: “Cristão incendiário: inimigo de Roma e do gênero humano”.
As Tochas de Nero (1876), por Henryk Siemiradzki. Em latim, uma inscrição diz: “Cristão incendiário: inimigo de Roma e do gênero humano”.

Aqueles confessores dos quais somente Deus conhece o número e os nomes, são mencionados no Martirológio Romano como os primeiros frutos com que Roma, tão fecunda nessas colheitas, povoou o Céu. É interessante notar que o primeiro dos césares que perseguiu os cristãos foi Nero, o mais vil, impiedoso e desprovido de princípios entre os imperadores romanos.


No mês de julho de 64, quando já haviam se passado dez anos desde que subiu ao trono, um terrível incêndio destruiu Roma. O fogo começou junto ao Grande Circo, em uma área de barracões e armazéns repletos de materiais inflamáveis, e daí se propagou rapidamente em todas as direções. As chamas devoraram tudo durante seis dias e sete noites, quando pareceu que haviam sido sufocadas pela demolição de numerosos edifícios; mas voltaram a surgir de entre os escombros e continuaram sua obra devastadora por mais três dias. Quando finalmente foram extintas definitivamente, dois terços de Roma eram uma massa disforme de ruínas fumegantes.


A Última Oração dos Mártires Cristãos (1883), por Jean-Léon Gérôme.
A Última Oração dos Mártires Cristãos (1883), por Jean-Léon Gérôme.

No terceiro dia do incêndio, Nero chegou a Roma, vindo de Âncio, para contemplar a cena. Afirma-se que se deleitou com aquela contemplação e que, trajando as vestes que costumava usar em apresentações teatrais, subiu ao topo da torre de Mecenas e ali, ao som da lira que ele próprio dedilhava, recitou o lamento de Príamo pelo incêndio de Troia. O bárbaro prazer do imperador, que cantava ao contemplar o fogo destruidor, deu origem à crença de que ele fora o autor da catástrofe e que, não somente ordenara o incêndio de Roma, como também dera ordens para que não se combatessem as chamas.


O boato correu de boca em boca até se transformar em acusação aberta. As pessoas afirmavam ter visto numerosos indivíduos misteriosos atirando tochas acesas dentro das casas, por ordem expressa do imperador. Até hoje não se sabe se Nero foi ou não o responsável por aquele incêndio. Diante dos numerosos incêndios que ocorreram em Roma desde então, pode-se dizer que também aquele, talvez o mais devastador de todos, foi fruto de um simples acidente. Entretanto, permanecia o fato da complacência de Nero, e as suspeitas contra ele se espalharam tanto que ele se alarmou e, para desviar as acusações feitas contra si, apontou os cristãos como autores diretos do incêndio.


Os Leões em Retirada (c. 1902), por Jean-Léon Gérôme.
Os Leões em Retirada (c. 1902), por Jean-Léon Gérôme.

Apesar de que, segundo afirma o historiador Tácito, ninguém acreditava que fossem culpados do crime, os cristãos foram perseguidos, detidos, expostos ao escárnio e à cólera do povo, encarcerados e entregues a torturas e à morte com incrível crueldade. Alguns foram envolvidos em peles frescas de animais selvagens e deixados à mercê de cães famintos para serem despedaçados; muitos foram crucificados; outros foram cobertos com cera, óleo e piche, amarrados a estacas e incendiados para que ardessem como tochas. Muitas dessas atrocidades ocorreram durante uma festa noturna oferecida por Nero nos jardins de seu palácio. O martírio dos cristãos foi um espetáculo adicional nas corridas de carros, onde o próprio Nero, vestido com as roupas plebeias de um auriga, divertia seus convidados misturando-se a eles e conduzindo os cavalos que puxavam um carro. Entre muitos romanos que presenciaram a selvagem crueldade dessas torturas, surgiu o sentimento de horror e piedade pelas vítimas, apesar de a população inteira já ter os sentimentos endurecidos, acostumada, como estava, aos combates sangrentos dos gladiadores.


Os Cristãos aos Leões (1902), por Jan Styka.
Os Cristãos aos Leões (1902), por Jan Styka.

Tácito, Suetônio, Dion Cássio, Plínio, o Velho, e o satírico Juvenal fazem menção ao incêndio; mas somente Tácito se refere à tentativa de Nero de fazer recair a culpa sobre um grupo determinado. Tácito especifica os cristãos pelo nome, mas Gibbon e outros estudiosos sustentam que o historiador inclui os judeus na designação, visto que, naquela época, os que haviam abraçado a religião de Cristo não eram tão numerosos a ponto de causar alarme entre as autoridades de Roma. Contudo, esse ponto de vista, que parece destinado a minimizar a influência do cristianismo, não tem muitos adeptos. No DCB, vol. IV, pp. 24-27, há um excelente artigo sobre o assunto.1




São Simplício de Autun
São Simplício de Autun

Além de sabermos que foi bispo de Autun, muito estimado por sua integridade e caridade, nada mais se conhece com certeza sobre São Simplício. Parece ter sucedido ao bispo Egemônio por volta do ano 390. Por outro lado, é possível que seja o mesmo bispo Simplício mencionado por Santo Atanásio como um dos signatários dos decretos do Concílio de Sárdica, em 347.


Segundo sua lenda, tal como a relata São Gregório de Tours, ele descendia de uma distinta família galo-romana. Ainda jovem, casou-se com uma donzela tão jovem e rica quanto ele próprio e, desde o princípio, ambos os esposos fizeram um pacto de viver em continência, dedicando-se à prática das boas obras. Quando Simplício assumiu a sede episcopal de Autun, cidade em sua maioria pagã, começaram a surgir murmurações que acabaram se transformando em escândalo, porque o novo bispo e sua esposa viviam sob o mesmo teto. Para justificar sua inocência, Simplício e sua esposa dispuseram-se a submeter-se à prova do fogo. Com as próprias mãos, tomaram brasas acesas e as sustentaram nas dobras de suas túnicas; durante uma hora permaneceram assim, diante do povo que os observava, sem que o fogo causasse qualquer dano a eles ou às suas vestes.


Tão convincente foi esse milagre que mais de mil pagãos pediram o batismo. São Simplício realizou outro prodígio igualmente frutuoso em conversões no dia da festa da deusa Berecíntia, ocasião em que se praticavam tumultuosas orgias. O santo bispo encontrou a estátua da deusa, transportada em uma carroça para abençoar os campos; levantou a mão para deter a procissão e, assim que fez o sinal da cruz, a imagem caiu ao chão. Foram inúteis os esforços de muitos homens para movê-la do lugar onde havia caído. Além disso, os bois que puxavam a carroça permaneceram imóveis, e nenhum esforço humano conseguiu fazê-los dar mais um passo.


A extraordinária história que acabamos de relatar encontra-se em De Gloria Confessorum, capítulos 73-76, de São Gregório de Tours. Existe também uma breve biografia medieval de São Simplício (publicada no Catalogue des Manuscrits Hagiographiques de Bruxelles, vol. I, pp. 127-129), e diz-se que foi dessa fonte que Gregório obteve suas informações; contudo, Bruno Krusch (Neues Archiv, vol. XXX, pp. 18-19) contesta essa hipótese.


O Martirológio Hieronimiano faz memória de um Simplício, bispo de Autun, não apenas neste dia, mas também em 19 de novembro, e há certos dados cronológicos que permitem supor que talvez tenham existido em Autun dois bispos com o mesmo nome. Veja-se também Duchesne, Fastes Episcopaux, vol. II, pp. 174-178.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 641-642.

2. Ibid. pp. 642-643.



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