Vida dos Mártires dos Lombardos e a Beata Inês de Boêmia (2 de março)
- 2 de mar.
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São Gregório Magno nos conservou, em um de seus Diálogos, a lembrança dos mártires dos lombardos, seus contemporâneos. Em meados do século VI, os lombardos da Escandinávia e da Pomerânia, que já haviam invadido a Áustria e a Baviera, desceram até a Itália, devastando as cidades por onde passavam. Não contentes com a destruição material, tentaram em muitos casos perverter a população com seus ritos pagãos. Em certo lugar, trataram de obrigar quarenta lavradores a comer a carne oferecida aos ídolos; como estes se negassem firmemente, os invasores passaram-nos à espada. Igualmente tentaram forçar outros prisioneiros a adorar sua deidade favorita, uma cabeça de cabra diante da qual aqueles pagãos dobravam os joelhos e que levavam em procissão, cantando hinos obscenos em sua honra. Quase todos os cristãos, que eram cerca de quatrocentos, preferiram morrer a renegar a Deus.
Ver São Gregório, Diálogos, livro III, cc. 26-27.1

A beata Inês da Boêmia ou “de Praga”, a quem Santa Clara chama “a metade do seu coração”, fundou o primeiro convento de Clarissas ao norte dos Alpes. Era descendente de São Venceslau (“o bom Rei Venceslau”); seu pai era Otacar II, que ocupou o trono da Boêmia em 1197; sua mãe, a irmã de André II da Hungria. Santa Isabel da Hungria era prima carnal da beata e apenas dois anos mais nova que ela. Aos três anos de idade, em 1208, Inês foi prometida em matrimônio a Boleslau, filho do duque Henrique da Silésia e de Santa Edviges. Imediatamente foi enviada com sua ama e um séquito de criados ao mosteiro de Trebnitz, na Silésia, fundado pela mãe de seu prometido. Segundo um documento latino do século XIV, que se encontra na biblioteca de Bamberg, “uma religiosa de Santa Edviges ensinou ali a Inês os primeiros rudimentos da fé e da moral”. Essa religiosa era provavelmente a abadessa Gertrudes. Dois anos mais tarde, Inês voltou à corte de seu pai. Aos nove anos de idade, foi novamente prometida em casamento, desta vez a Henrique, filho do imperador Frederico II, e partiu para a corte da Áustria para aprender o alemão e familiarizar-se com os costumes germânicos. Deve-se advertir que Boleslau, a quem Inês havia sido prometida primeiramente, morrera quando a menina tinha seis anos; por isso ela havia retornado à Boêmia, ao convento premonstratense de Doxan. A corte da Áustria não deslumbrou Inês, que se sentia cada vez mais atraída por Deus e praticava severos jejuns e outras austeridades. Compreendendo que o Senhor a chamava a uma vida de virgindade, a beata pedia-Lhe ardentemente que a colocasse em condições de seguir sua vocação. Inês deve ter sofrido muito naquela época, pois o duque Leopoldo da Áustria, a cujos cuidados fora confiada, tinha intenção de casar sua própria filha com o prometido de Inês. Os planos do duque tiveram êxito e Inês retornou novamente ao seu país, provavelmente cheia de alegria, porque suas orações haviam sido atendidas.

Mas sua alegria não durou muito: Henrique III da Inglaterra e o imperador Frederico II, que havia ficado viúvo, fizeram-lhe propostas de casamento e, apesar das objeções de Inês, seu irmão, o rei Venceslau, prometeu sua mão ao imperador. A beata redobrou suas orações e penitências; seus ricos vestidos ocultavam uma camisa de pelos ásperos e um cilício de aço. Com frequência levantava-se antes da aurora e, descalça e mal agasalhada, partia com suas mais devotas donzelas para visitar as igrejas. Ao voltar, lavava os pés, feridos pela caminhada, vestia trajes apropriados e começava sua jornada palaciana e suas visitas aos enfermos. Em 1235, quando Inês tinha vinte e oito anos e se encontrava na plenitude de sua beleza, o imperador enviou a Praga um embaixador para escoltá-la à Alemanha. Venceslau recusou-se a ouvir as objeções de sua irmã; mas Inês conseguiu adiar a partida e escreveu ao Papa Gregório IX, rogando-lhe que impedisse o matrimônio, pois jamais havia consentido em casar-se e desejava consagrar-se a Deus na vida religiosa. Embora o Papa tivesse acabado de fazer as pazes com o imperador, conhecia suficientemente Frederico para compreender a atitude de Inês; assim, enviou um legado a Praga para defender a jovem e escreveu pessoalmente a ela. Inês mostrou a carta do Pontífice a seu irmão Venceslau, que ficou muito alarmado: por um lado temia a ira do imperador, mas, por outro, não queria indispor-se com o Papa nem forçar sua irmã a casar-se contra a própria vontade. Finalmente, decidiu informar Frederico de tudo. O imperador teve nessa ocasião um desses raros acessos de magnanimidade em seu complexo caráter, que o tornaram uma figura fascinante da história. Quando compreendeu que não se tratava de uma medida política do rei da Boêmia, mas de um verdadeiro desejo de Inês, rescindiu o compromisso com estas palavras: “Se ela me tivesse deixado por um homem mortal, eu teria feito sentir o peso de minha vingança; mas não posso sentir-me ofendido porque tenha preferido o Rei do Céu”.

Vendo-se enfim livre, Inês começou a pensar na maneira de consagrar a Deus sua própria pessoa e seus bens. Seu pai havia levado a Praga os franciscanos, provavelmente a pedido da beata; Inês concluiu a construção do convento para eles. Igualmente, com a ajuda de seu irmão, fundou um hospital para os pobres e chamou a Praga os Cavaleiros Hospitalários da Cruz e da Estrela, cuja igreja e mosteiro ainda se conservam. Inês e Venceslau construíram também um mosteiro para as Clarissas Pobres. O povo da Boêmia queria participar das despesas da construção, mas o rei e sua irmã recusaram a ajuda. Conta-se, porém, que os pedreiros, decididos a contribuir de algum modo, iam às escondidas ao final da jornada para evitar que lhes pagassem. Assim que o convento ficou concluído, Santa Clara enviou cinco religiosas. A Beata Inês tomou ali o véu, no Pentecostes de 1236. O fato impressionou grandemente a população; cerca de cem donzelas de boa família ingressaram no convento, enquanto em toda a Europa princesas e damas nobres seguiram seu exemplo e os conventos de Clarissas Pobres se multiplicaram. Inês foi digna filha de São Francisco; buscava em tudo o lugar mais humilde e os trabalhos mais árduos. Não sem dificuldade, teve de aceitar o cargo de abadessa, ao menos temporariamente, quando recebeu a nomeação do Papa Gregório IX. Depois de muitos esforços, obteve finalmente que as Damas Pobres de Praga pudessem renunciar a todas as rendas e posses que até então tinham em comum, como fizera Santa Clara no convento de São Damião, em 1238. As quatro cartas que se conservam de Santa Clara à beata mostram o terno afeto que lhe dedicava. A santa enviou igualmente a Inês uma cruz de madeira, um véu pardo e a vasilha de barro na qual costumava beber. Inês viveu até os setenta e sete anos de idade e morreu em 2 de março de 1282. Seu culto foi confirmado pelo Papa São Pio X. Os franciscanos celebram sua festa em 8 de junho, juntamente com a da Beata Isabel da França e do Beato Batista Varani.
O historiador W. W. Seton, em Some New Sources for the Life of Bd. Agnes of Bohemia, trata a fundo todas as questões relacionadas com as fontes biográficas da Beata Inês. Os documentos mais conhecidos encontram-se em Acta Sanctorum, março, vol. I; porém Seton descobriu e publicou uma biografia latina mais antiga (século XIV) e uma tradução alemã que explica alguns pontos do original. O mesmo historiador defende a autenticidade das quatro cartas de Santa Clara a Inês. Léon, Auréole Séraphique, vol. I, pp. 339-348 e Mazzara, Leggendario Francescano, março, nn. 19-21, são modelos de biografias populares.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 445.
2. Ibid. pp. 449-450.






















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