Vida de São Justino, Mártir e Santos Tibúrcio, Valeriano e Máximo (14 de abril)
- 14 de abr.
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Um dos mais ilustres mártires do reinado de Marco Aurélio foi São Justino. Embora fosse leigo, foi o primeiro apologista cristão cujas principais obras chegaram até nós. Seus escritos oferecem detalhes muito interessantes sobre os primeiros anos do santo e as circunstâncias de sua conversão. O próprio Justino conta que era samaritano, pois havia nascido em Flávia Neápolis (Nablus, perto da antiga Siquém); não conhecia o hebraico, pois seus pais eram pagãos, provavelmente de origem grega. Justino recebeu uma excelente educação liberal, que aproveitou muito bem, e dedicou-se especialmente ao estudo da retórica e à leitura dos poetas e historiadores. Mais tarde, sua sede de saber levou-o a estudar filosofia. Durante algum tempo aprofundou o sistema dos estóicos, mas o abandonou ao compreender que não tinham nada a lhe ensinar sobre Deus. Recorreu então a um mestre peripatético, mas o interesse deste pelo dinheiro o decepcionou muito rapidamente. Os pitagóricos disseram-lhe que, para começar, precisava conhecer música, geometria e astronomia. Finalmente, um discípulo de Platão ofereceu-se para ensinar-lhe a ciência de Deus. Um dia em que passeava pela praia, talvez em Éfeso, refletindo sobre um dos princípios de Platão, viu que um venerável ancião o seguia; imediatamente começou a discutir com ele o problema de Deus. O ancião despertou seu interesse, dizendo-lhe que conhecia uma filosofia mais nobre e satisfatória do que todas as que Justino havia estudado; o próprio Deus havia revelado tal filosofia aos profetas do Antigo Testamento e seu ponto culminante fora Jesus Cristo. O ancião exortou o jovem a pedir que se lhe abrissem as portas da luz para alcançar o conhecimento que somente Deus podia dar. A conversa com o ancião levou Justino a estudar a Sagrada Escritura e a informar-se sobre o cristianismo, embora já antes tivesse se interessado pela religião de Jesus:
“Mesmo na época em que me satisfaziam os ensinamentos de Platão — escreve —, ao ver os cristãos enfrentarem a morte e a tortura com valor indomável, eu compreendia que era impossível que tivessem levado a vida criminosa de que eram acusados.”
Ao que parece, Justino tinha cerca de trinta anos quando se converteu ao cristianismo; mas ignoramos o lugar e a data exata de seu batismo. Muito provavelmente este ocorreu em Éfeso ou em Alexandria, pois consta que Justino esteve nessas cidades.
Embora já houvesse antes alguns apologistas cristãos, os pagãos conheciam muito pouco das crenças e práticas dos discípulos de Cristo. Os primeiros cristãos, a maioria dos quais eram homens simples e pouco instruídos, aceitavam tranquilamente as falsas interpretações para proteger os sagrados mistérios da profanação. Mas Justino estava convencido, por sua própria experiência, de que muitos pagãos abraçariam o cristianismo, se lhes fosse apresentado em todo o seu esplendor.
Por outro lado — citemos suas próprias palavras —
“temos a obrigação de dar a conhecer nossa doutrina pura para não incorrermos na culpa e no castigo daqueles que pecam por ignorância.”

Assim, tanto em seu ensino como em seus escritos, expôs claramente a fé e até descreveu as cerimônias secretas dos cristãos. Vestido com as roupas características dos filósofos, Justino percorreu vários países, discutindo com pagãos, hereges e judeus. Em Roma teve uma discussão pública com um cínico chamado Crescêncio, na qual demonstrou a ignorância e a má fé de seu adversário. Ao que parece, a prisão de Justino em sua segunda viagem a Roma deveu-se ao ódio que Crescêncio lhe dedicava. Justino confessou valentemente a Cristo e recusou-se a oferecer sacrifícios aos ídolos. O juiz o condenou à decapitação. Com ele morreram outros seis cristãos, uma mulher e cinco homens. Desconhecemos a data exata da execução. O Martirológio Romano comemora São Justino no dia 14 de abril, no dia seguinte à festa de São Carpo, cujo nome precede imediatamente o de São Justino na crônica de Eusébio.
Os únicos escritos de Justino mártir que chegaram completos até nós são as duas Apologias e o Diálogo com Trifão. A primeira Apologia, da qual a segunda não passa de um apêndice, é dedicada ao imperador Antonino, a seus dois filhos, ao senado e ao povo romano. Nela, Justino protesta contra a condenação dos cristãos por causa de sua religião ou de falsas acusações. Depois de demonstrar que é injusto acusá-los de ateísmo e imoralidade, insiste em que não só não são um perigo para o Estado, mas são cidadãos pacíficos, cuja lealdade ao imperador se baseia em seus próprios princípios religiosos. Perto do fim, o apologista descreve o rito do batismo e da Missa dominical, incluindo o banquete Eucarístico e a distribuição de esmolas. O terceiro livro de Justino é uma defesa do cristianismo em contraste com o judaísmo, sob a forma de um diálogo com um judeu chamado Trifão. Parece que Santo Irineu utilizou um tratado de Justino contra a heresia.
São Justino Mártir sobre a Eucaristia:
“E esta comida é chamada entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, exceto aquele que acredita que as coisas que ensinamos são verdadeiras, e que recebeu a lavagem que é para a remissão dos pecados e para o renascimento, e que vive como Cristo ensinou. Pois não recebemos essas coisas como pão comum nem bebida comum; mas da mesma maneira que Jesus Cristo, nosso Salvador, tendo se encarnado pelo logos de Deus, tomou carne e sangue para nossa salvação, assim também fomos ensinados que a comida eucarística através da palavra de oração que é Dele, da qual nossa carne e sangue são nutridos por transformação, é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou. Pois os Apóstolos, nos seus escritos, que são chamados Evangelhos, transmitiram assim o que lhes foi ordenado; que Jesus tomou pão e, tendo dado graças, disse: 'Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo"; e da mesma forma Ele tomou o cálice e, tendo dado graças, disse: 'Este é o meu sangue'; e o deu somente a eles.'” (São Justino Mártir, Primeira Apologia, parágrafo 66.)
As atas do julgamento e do martírio de São Justino são um dos documentos mais valiosos e autênticos que chegaram até nós. O prefeito romano, Rústico, diante do qual compareceram Justino e seus companheiros, exortou-os a submeter-se aos deuses e a obedecer aos imperadores. Justino respondeu que não era crime obedecer à lei de Jesus Cristo:
Rústico: Em que disciplina és especializado?
Justino: Estudei primeiro todos os ramos da filosofia; acabei por escolher a religião de Cristo, por mais desagradável que isso possa ser para aqueles que estão no erro.
Rústico: Mas deves estar louco por ter escolhido essa doutrina.
Justino: Sou cristão porque no cristianismo está a verdade.
Rústico: Em que consiste exatamente a doutrina cristã?
Justino explicou-lhe que os cristãos acreditavam em um só Deus, criador de todas as coisas, e que confessavam seu Filho, Jesus Cristo, anunciado pelos profetas, que veio salvar e julgar a humanidade. Rústico perguntou então onde os cristãos se reuniam.
Justino: Onde podem. Acaso pensas que todos nos reunimos no mesmo lugar? Não. O Deus dos cristãos não está limitado a um só lugar; é invisível e está em toda parte, tanto no céu como na terra, de modo que os cristãos podem adorá-Lo em toda parte.
Rústico: Está bem. Mas dize-me então onde te reuniste tu com teus discípulos.
Justino: Sempre me hospedei na casa de um homem chamado Martim, junto às termas de Timóteo. Esta é minha segunda viagem a Roma e nunca me hospedei em outro lugar. Todos os que o desejarem podem ir ver-me e ouvir-me na casa de Martim.
Rústico: Assim, então, és cristão?
Justino: Sim, sou cristão.
Depois de perguntar aos outros se também eram cristãos, Rústico disse a Justino: Dize-me, tu que és eloquente e crês possuir a verdade, se eu mandar torturar-te e decapitar-te, crês que irás ao Céu?
Justino: Se sofrer por Cristo tudo o que dizes, espero receber a recompensa prometida àqueles que guardam seus mandamentos. Creio que todos os que cumprem seus mandamentos permanecem na graça de Deus eternamente.
Rústico: De modo que crês que irás ao Céu para receber a recompensa?
Justino: Não é uma simples crença, mas uma certeza. Não tenho a menor dúvida disso.
Rústico: Está bem. Aproxima-te e sacrifica aos deuses.
Justino: Nenhum homem sensato renuncia à verdade pela mentira.
Rústico: Se não o fizeres, mandarei torturar-te sem misericórdia.
Justino: Nada desejamos mais do que sofrer por nosso Senhor Jesus Cristo e salvar-nos. Assim poderemos apresentar-nos com confiança diante do trono de nosso Deus e Salvador para sermos julgados, quando este mundo chegar ao fim.

Os outros cristãos confirmaram tudo o que Justino havia dito. O juiz os condenou a serem flagelados e decapitados. Os mártires morreram por Cristo no lugar habitual. Alguns dos fiéis recolheram, em segredo, os corpos e lhes deram sepultura, sustentados pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos. Amém.
Como é natural, existe uma literatura muito abundante sobre um apologista cuja vida e escritos levantam tantos problemas. Recomendamos, a esse propósito, a excelente bibliografia apresentada por G. Bardy em seu artigo Justin no DTC., vol. VIII (1924), col. 2228-2277. Fora o fato de seu martírio, tudo o que sabemos sobre São Justino se reduz ao que ele mesmo nos conta em seu “Diálogo” com Trifão. Santo Irineu, Eusébio e São Jerônimo mencionam São Justino, mas quase não acrescentam nenhum dado novo. O texto das atas de seu martírio encontra-se em Acta Sanctorum (junho, vol. 1), assim como nas obras de Pio Franchi de Cavalieri (Studi e Testi, vol. VII) e de Burkitt (Journal of Theological Studies, 1910, vol. XI, pp. 61-66). Há excelentes estudos sobre a vida e os escritos de São Justino; por exemplo, Lagrange (na coleção Les Saints); J. Rivière, St. Justin et les Apologistes du IIIème siècle (1907); A. Béry, St. Justin, sa vie et sa doctrine (1911); e outros. Em quase todas as coleções modernas de atas dos mártires encontram-se as atas de São Justino; ver, por exemplo, as de Krüger-Knopf, Owen, Monceaux. Ver sobretudo Delehaye, Les Passions des Martyrs et les Genres Littéraires, pp. 119-121. É curioso que em Roma não se conserve nenhum vestígio do culto a São Justino; seu nome não aparece nem no calendário filocaliano nem no Hieronymianum. Há uma excelente pequena obra do P. C. C. Martindale, St. Justin the Martyr (1923). Nos Estados Unidos apareceram nos últimos anos a tradução da “Apologia” e a do “Diálogo” com Trifão.1

A Igreja venerou, desde tempos muito antigos, os mártires Tibúrcio, Valério e Máximo. A catacumba de São Calisto, na qual foram descobertos seus restos, foi chamada em certa época de cemitério de Tibúrcio. Alguns martirológios antigos afirmam que Valério (ou Valeriano) era irmão de Tibúrcio e prometido de Santa Cecília; mas, na realidade, sabemos muito pouco sobre esses mártires e nem sequer podemos precisar a data de seu martírio. Tal como chegou até nós, sua lenda faz parte da de Santa Cecília; e é necessário recordar que as “atas de Santa Cecília” foram escritas e se difundiram no século IV. Portanto, não podemos considerar esse documento, que nem sequer se baseia em materiais autênticos, como uma fonte fidedigna. Vale a pena comparar o sóbrio e convincente relato do julgamento e da morte de São Justino, citado no artigo anterior, com a lenda, repleta de acontecimentos inverossímeis, na qual aparecem os nomes de Tibúrcio, Valério e Máximo.
Ver o artigo e a bibliografia sobre Santa Cecília nesta mesma obra (22 de novembro, vol. IV).2
Em Roma, no cemitério de Pretextato, na via Ápia, santos Tibúrcio, Valeriano e Máximo, mártires. Esses três mártires estiveram sepultados nas catacumbas de Pretextato, e nas mesmas catacumbas figura o nome de “Urbano”. Possivelmente isso fez com que a lenda, na falta de dados certos, relacionasse os três mártires com o Papa São Urbano I.

Uma imaginação exuberante fez o resto: nos séculos V e VI toma forma e se difunde a lenda ceciliana, que envolve a morte de Santa Cecília com toda uma tensão dramática familiar. Recordemo-la brevemente: na noite de núpcias, a jovem cristã Cecília — que foi desposada contra a sua vontade — ameaça seu marido com as consequências que teria se ele violasse seu voto de castidade; o marido hesita, mas começa a interessar-se por esse voto, até que, por meio de sua esposa, entra em contato com o Papa Urbano I, que o catequiza e batiza, e também a seu irmão. Finalmente, todos eles acabam mártires, e ao grupo se une o prefeito encarregado de custodiá-los, ao ver o testemunho de firmeza cristã. Tudo isso narrado em meio a prodígios, cada um mais espetacular que o outro.
Esses três homens implicados na lenda — o marido de Cecília, o cunhado e o prefeito — seriam, respectivamente, Tibúrcio, Valério (ou Valeriano) e Máximo. Devemos então, como em todos esses casos, separar os dois aspectos: um é a existência real de três mártires cujos nomes conhecemos por inscrições e pelos diversos documentos que atestam as trasladações de suas relíquias. Esses três mártires — os que celebramos hoje — são mencionados em vários martirológios antigos; a data de 14 de abril é atribuída a Tibúrcio no Martirológio Jeronimiano, do século VI; a atribuição dos outros dois mártires à mesma data já provém de sua mistura na lenda ceciliana, como já dissemos. O segundo aspecto, completamente espúrio, mas que permite explicar algumas peculiaridades do culto que lhes foi prestado ao longo do tempo, é como, a partir dos nomes isolados, foram assumindo funções concretas em uma determinada lenda.
Seus sepulcros foram restaurados pelo Papa São Gregório III (731-741), pelo Papa Adriano I (772-795) e, por fim, pelo Papa Pascoal I (817-824), que trasladou suas relíquias para a basílica de Santa Cecília no Trastevere. A abundante iconografia dos três mártires faz referência, naturalmente, à lenda ceciliana. No estado atual do conhecimento sobre esses três mártires, não há nenhuma maneira de estabelecer em qual das perseguições sofreram o martírio.3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 87-89.
2. Baseado no artigo de Butler-Guiné (México, 1964) e no artigo de Antonio Borrelli em Santi e Beati. A bibliografia é a que corresponde a Santa Cecília. Tirado de "Santos Tiburcio, Valeriano y Máximo, Mártires" de oremusjuntos.com.
3. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 89-90.






















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