Vida de Santo Isidoro de Sevilha e São Benedito, o Negro (4 de abril)
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São Bráulio, discípulo e amigo de Santo Isidoro, dizia que Deus parecia tê-lo destinado a erguer uma barreira contra a barbárie e a ferocidade dos exércitos godos na Espanha. O pai de Isidoro, chamado Severiano, nascera em Cartagena, provavelmente de uma família romana, mas estava ligado por parentesco aos reis visigodos. Dois dos irmãos de Santo Isidoro, Leandro, que era muito mais velho que ele, e Fulgêncio, também se tornaram bispos e santos. Santa Florentina, sua irmã, foi abadessa de vários conventos. A educação de Isidoro foi confiada a Leandro, que parece ter sido bastante severo. Segundo a lenda, Isidoro, ainda criança, fugiu de casa para escapar da severidade de seu irmão e das lições, que considerava muito difíceis; embora Isidoro tenha retornado espontaneamente ao lar cheio de boas intenções, Leandro o trancou em uma cela para impedir que fugisse novamente. Talvez o tenha enviado a um mosteiro para continuar sua educação.
Qualquer que tenha sido o método empregado por Leandro, os resultados foram excelentes, pois Isidoro tornou-se um dos homens mais sábios de sua época e, fato muito notável naquele tempo, um homem profundamente interessado na educação. Embora seja quase certo que nunca tenha sido monge, professava grande amor pelas ordens religiosas; os monges lhe pediram que compilasse o código de regras que leva seu nome e que se generalizou por toda a Espanha. Nesse código, Santo Isidoro enfatiza que não deve haver nos mosteiros qualquer distinção entre homens livres e servos, pois todos são iguais perante Deus. Muito provavelmente, Santo Isidoro ajudou São Leandro no governo da diocese de Sevilha e lhe sucedeu após sua morte. Durante seu episcopado, que durou trinta e sete anos, sob seis reis, completou a obra iniciada por São Leandro de converter os visigodos do arianismo ao catolicismo. Também continuou o costume de seu irmão de resolver questões de disciplina eclesiástica nos sínodos, cuja organização se deveu em grande parte a São Leandro e a Santo Isidoro. Modelo de governo representativo, esses sínodos foram estudados com admiração por aqueles interessados no moderno sistema parlamentar.

São Isidoro presidiu o segundo Concílio de Sevilha em 619, e o quarto Concílio de Toledo, em 633; neste último, seus méritos excepcionais como principal mestre da Espanha lhe garantiram precedência sobre o arcebispo de Toledo. Muitos dos decretos do Concílio foram obra de São Isidoro, em particular o decreto que estabeleceu em todas as dioceses um seminário ou escola catedralícia. O sistema educativo do idoso prelado era extraordinariamente aberto e progressista; longe de imitar servilmente o sistema clássico, propôs um método que abrangia todas as áreas do saber humano, como as artes, a medicina e as leis, assim como o hebraico e o grego; além disso, na Espanha estudava-se Aristóteles muito antes de os árabes o colocarem em moda.
Ao que parece, Santo Isidoro previu que a unidade religiosa e um sistema educativo suficientemente amplo eram capazes de unificar os elementos heterogêneos que ameaçavam desintegrar a Espanha. Graças a ele, em grande parte, a Espanha tornou-se um centro de cultura, enquanto o resto da Europa afundava na barbárie. A principal contribuição de Santo Isidoro à cultura foi a compilação de uma espécie de enciclopédia, chamada “Etimologias” ou “Origens”, que sintetizava todo o conhecimento da época. Santo Isidoro foi chamado de “o Mestre da Idade Média”; sua obra foi um dos textos clássicos até meados do século XVI. O santo foi um escritor muito prolífico: entre suas primeiras obras, estavam um dicionário de sinônimos, um tratado de astronomia e geografia física, um resumo da história do mundo desde a criação, uma biografia de homens ilustres, um livro sobre os valores do Antigo e do Novo Testamento, um código de regras monásticas, vários tratados teológicos e eclesiásticos e a história dos godos, vândalos e suevos. De todas essas obras, a mais valiosa hoje é, sem dúvida, a história dos godos, pois constitui nossa única fonte de informação sobre um período da era visigótica. Outro grande serviço que São Isidoro prestou à Igreja espanhola foi completar o missal e o breviário moçárabe, que São Leandro havia começado a adaptar da antiga liturgia espanhola para uso dos godos.

Apesar de ter vivido quase até os oitenta anos, Santo Isidoro nunca abandonou a prática da austeridade, embora sua saúde estivesse bastante debilitada. Nos últimos seis meses de sua vida, aumentou tanto suas esmolas que os pobres invadiam sua casa da manhã à noite. Quando compreendeu que seu fim se aproximava, convidou dois bispos para visitá-lo. Na companhia deles, dirigiu-se à igreja, onde um o cobriu com uma manta simples e o outro jogou cinzas sobre sua cabeça. Assim, vestido de penitente, Santo Isidoro levantou os braços para o céu e pediu em voz alta perdão por seus pecados; em seguida, recebeu o viático, confiou-se às orações dos presentes, perdoou seus inimigos, exortou o povo à caridade e distribuiu entre os pobres o restante de suas posses. Depois voltou para casa e morreu pacificamente, pouco tempo depois.
A Igreja o declarou Doutor Universal em 1722. Seu nome aparece no Cânon da Missa do rito moçárabe, que ainda se celebra em Toledo. O Venerável Beda começou a escrever, pouco antes de morrer, um comentário sobre as obras de Santo Isidoro.
Os materiais biográficos primitivos sobre Santo Isidoro não são muito satisfatórios. Existe um relato de sua morte, escrito por Redempto, e um panegírico de seu discípulo Bráulio; mas a biografia atribuída a Lucas, bispo de Tuy, é muito pobre e carece de valor histórico, pois foi escrita vários séculos após a morte do santo. Pode ser lida em Acta Sanctorum, abril, vol. 1. Em DTC, vol. III, pp. 98-111, encontra-se uma bibliografia completa, assim como muitos outros detalhes sobre a vida do santo. Cf. P. Séjourné, St. Isidore de Séville (1929). Em 1936, foi publicada em Roma uma Miscellanea Isidoriana em vários idiomas.1

Benedito nasceu em uma pequena aldeia nos arredores de Messina, na Sicília. Seus pais, que eram bons cristãos, nasceram na África e eram escravos de um rico proprietário. Haviam adotado o sobrenome de seu senhor (Manasseri), conforme o costume da época. O senhor de Cristóvão, como se chamava o pai do santo, nomeou-o mordomo de sua casa e havia prometido a liberdade de Benedito, seu filho mais velho. Benedito era tão amável e piedoso que, aos dez anos, já era chamado pelas pessoas de “il moro santo” (o negro santo), apelido que manteve por toda a vida. Quando tinha cerca de vinte e um anos, um de seus vizinhos o insultou grosseiramente, aludindo à cor de sua pele e à escravidão de seus pais. Precisamente naquele momento, passava por ali um jovem chamado Lanzi, que havia se retirado para uma ermida com alguns companheiros para imitar São Francisco de Assis. Impressionado pela mansidão das respostas de Benedito, disse aos presentes: “Agora zombais deste pobre negro; mas eu vos digo que em breve ouvireis grandes coisas sobre ele.” Pouco depois, Benedito vendeu suas poucas posses e foi se reunir aos eremitas.
Nos anos seguintes, os eremitas mudaram várias vezes de residência; finalmente estabeleceram-se em Montepellegrino, perto de Palermo, onde antes havia habitado Santa Rosália. À morte de Lanzi, a comunidade elegeu superior Benedito, apesar da resistência que ele apresentou. Quando Benedito tinha mais ou menos trinta e oito anos, Pio IV ordenou que os eremitas se dispersassem ou se fundissem com alguma das ordens religiosas já existentes. Benedito entrou como irmão leigo no convento franciscano de Santa Maria, perto de Palermo. Primeiro desempenhou o cargo de cozinheiro, que se adequava bem ao seu gosto pela vida retirada e lhe oferecia inúmeras oportunidades de se mostrar prestativo. Mas sua extraordinária santidade não podia passar despercebida; seu rosto se iluminava na capela com um fulgor sobrenatural e a comida parecia multiplicar-se em suas mãos.

Em 1578, no capítulo de Palermo, os Frades Menores da Observância decidiram transformar o convento de Santa Maria em mosteiro reformado. Era necessário confiar essa missão a um superior excepcionalmente prudente. A escolha do capítulo recaiu sobre Benedito, embora fosse simples irmão leigo e não soubesse ler nem escrever. Benedito tentou renunciar, mas seus superiores lhe impuseram o cargo por obediência. Os fatos deram razão aos eleitores. Benedito foi um superior ideal, muito equilibrado e de um tato tão grande que suas advertências não feriam ninguém e produziam sempre o efeito desejado. Logo se divulgou por toda a Sicília a fama de sua santidade e milagres; quando Benedito foi ao capítulo provincial de Girgenti, o clero e o povo saíram para recebê-lo e as mulheres e crianças disputavam a honra de beijar sua mão e de arrancar fios do hábito para guardar como relíquias.
Quando deixou de ser superior, Benedito foi nomeado vigário do convento e mestre de noviços. Também neste último cargo destacou-se muito. Parecia possuir uma ciência infusa para explicar as Sagradas Escrituras de maneira que edificava igualmente sacerdotes e noviços, e suas profundas intuições sobre as verdades teológicas admiraram mais de uma vez os sábios. Seu dom de ler pensamentos e sua extraordinária bondade fizeram dele um excelente mestre de noviços. No entanto, o santo se alegrou quando seus superiores o dispensaram do cargo e o mandaram de volta à cozinha, embora, naturalmente, já não pudesse passar ali tão despercebido como nos primeiros anos. Visitantes de todas as classes sociais acudiam continuamente: os pobres em busca de esmolas, os doentes em busca de cura e pessoas distintas em busca de conselho. São Benedito não se negava a ninguém, mas detestava demonstrações de respeito. Quando precisava sair do convento, procurava fazê-lo à noite e cobria o rosto com o capuz para não ser reconhecido.

Toda sua vida continuou praticando as austeridades dos eremitas. No entanto, no que se refere ao jejum, costumava dizer que a melhor forma de mortificação não consistia em privar-se da comida, mas em deixar de comer antes de ter satisfeito completamente a fome; dizia também que era bom provar a comida recebida como esmola para demonstrar gratidão aos benfeitores e agradá-los.
São Benedito morreu em 1589, aos sessenta e três anos de idade, após uma breve doença. É o padroeiro dos negros dos Estados Unidos e protetor da cidade de Palermo. Foi canonizado em 1807.
Ver a Juan de Capistrano, Vita di San Benedetto di San Fradello (1808), e a biografia escrita pelo P. B. Nicolosi (1907); igualmente Léon, Auréole Séraphique (trad. ingl.), vol. 11, pp. 14-31.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 25-27.
2. Ibid. pp. 29-30.






















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