Vida de São Sérvulo e Santas Vitória e Anatólia, Mártires (23 de dezembro)
- Sacra Traditio

- 23 de dez. de 2025
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A “Paixão” de Santa Anatólia, que carece de valor histórico, relata que a jovem, em consequência de uma visão, recusou-se a contrair matrimônio com um pretendente chamado Aurélio. Este recorreu então a Vitória, irmã de Anatólia, para que ela a convencesse de que devia aceitar sua proposição. Vitória não só fracassou na empresa, como também, seguindo o exemplo de sua irmã, rompeu seus esponsais com Eugênio. Então, os dois jovens encerraram as duas irmãs em suas respectivas casas de campo e trataram de vencê-las pela fome. Depois, Anatólia foi denunciada por ser cristã. O Martirológio Romano resume assim o seu martírio:
“Depois de curar diversas enfermidades de muitas pessoas e convertê-las à fé de Cristo, na província de Piceno, sofreu diferentes torturas por ordem do juiz Faustiniano. Tendo-se livrado milagrosamente de uma serpente que lhe lançaram por cima, converteu (o verdugo) Audax. Em seguida, levantou as mãos para orar e foi transpassada por uma lança.”
Vitória sofreu o martírio, talvez em Tribulano, nos Montes Sabinos. “Recusou-se a contrair matrimônio com Eugênio e a oferecer sacrifícios. Depois de operar muitos milagres, com os quais ganhou para Deus numerosas donzelas, seu coração foi transpassado pela espada do verdugo, a instâncias de seu prometido.”
Em vários lugares da Itália veneram-se Santa Anatólia e Santa Vitória; porém, as verdadeiras circunstâncias de seu martírio são desconhecidas. Na “paixão” dessas mártires fala-se do matrimônio em um tom que se encontra em outros documentos cristãos, mas que correspondeu mais às doutrinas heréticas do encratismo do que aos ensinamentos da Igreja Católica. São Adelmo de Sherborne utilizou as “atas” de Santa Luzia e as de Santa Vitória em seus tratados De laudibus virginitatis.

Existem várias versões da paixão dessas mártires (cf. BHL., nn. 417-420 e 8591-8593). Os textos variam muito, estão cheios de contradições e carecem de valor histórico. Mas há razões para crer que as mártires realmente existiram. Veja-se P. Paschini, La passio delle martire Sabine Vittoria et Anatolia (1919); Lanzoni, Le diocesi d'Italia, pp. 347-350; Schuster, Bolletino diocesano per Sabina, etc. (1917), pp. 163-167; e sobretudo Delehaye, CMH., pp. 364 e 654, e Étude sur le légendier romain (1936), pp. 59-60.1

São Sérvulo, como o Lázaro da parábola de Cristo, era um “homem pobre e coberto de chagas que jazia diante da porta da casa de um rico”. De fato, o nosso santo esteve paralítico desde criança, de modo que não podia pôr-se em pé, sentar-se, levar a mão à boca, nem mudar de posição. Sua mãe e seu irmão costumavam levá-lo nos braços ao átrio da igreja de São Clemente de Roma. Sérvulo vivia das esmolas que as pessoas lhe davam. Se lhe sobrava algo, repartia-o entre outros necessitados. Apesar de sua miséria, conseguiu economizar o suficiente para comprar alguns livros da Sagrada Escritura. Como não sabia ler, fazia com que outros lhos lessem, e escutava com tanta atenção que chegou a aprendê-los de memória. Passava grande parte do seu tempo cantando salmos de louvor e agradecimento a Deus, apesar de tudo o que sofria. Ao cabo de vários anos, sentindo que se aproximava o seu fim, pediu aos pobres e peregrinos, a quem tantas vezes havia socorrido, que entoassem hinos e salmos junto ao seu leito de morte. Ele cantou com eles. Mas, subitamente, interrompeu-se e gritou: “Ouvis a bela música celestial?” Morreu ao terminar de pronunciar essas palavras, e sua alma foi transportada pelos anjos ao paraíso. Seu corpo foi sepultado na igreja de São Clemente, diante da qual costumava estar sempre. Sua festa celebra-se todos os anos, nessa igreja da Colina Coeli.

São Gregório Magno conclui um sermão sobre São Sérvulo, dizendo que a conduta desse pobre mendigo enfermo é uma acusação contra aqueles que, gozando de saúde e fortuna, não fazem nenhuma boa obra nem suportam com paciência a menor cruz. O santo fala de Sérvulo em um tom que revela que ele era muito conhecido por ele e por seus ouvintes, e conta que um de seus monges, que assistiu à morte do mendigo, costumava referir que o seu cadáver exalava uma suave fragrância. São Sérvulo foi um verdadeiro servo de Deus, esquecido de si mesmo e solícito da glória do Senhor, de modo que considerava como um prêmio o poder sofrer por Ele. Com sua constância e fidelidade venceu o mundo e superou as enfermidades corporais.
A única coisa que sabemos sobre Sérvulo é o que conta São Gregório Magno. Veja-se Diálogos, lib. IV, c. 14; e também as homilias de São Gregório, Migne, PL., vol. LXXVI, col. 1133.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 600-601.
2. Ibid. p. 601.


























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