Vida de São Ladislau da Hungria e Beato Benvindo de Gúbio (27 de junho)
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Se é verdade que a Hungria deve a Santo Estêvão o estabelecimento de sua monarquia e a organização de sua Igreja, não é menos certo que possui igual dívida para com outro santo rei da mesma Casa de Arpades. Pois Ladislau ampliou as fronteiras do reino, manteve seus inimigos sob controle e, do ponto de vista político, transformou a Hungria em um grande Estado. Entretanto, os homens não são canonizados por tais realizações, mas por sua vida privada e por seu trabalho em favor da cristandade; por isso, sua memória recebe a devida veneração.
Passou a infância e a juventude em um ambiente marcado por intrigas políticas e dinásticas e, sem alterações significativas nesse estado de coisas, Ladislau ocupou o trono da Hungria no ano de 1077. Imediatamente, seus direitos ao trono foram contestados por seu meio-irmão Salomão, que tomou as armas contra ele; ao final, porém, o rei o derrotou no campo de batalha. Afirma-se que o jovem monarca era um modelo de virtudes e que, desde cedo, demonstrou possuir todas as qualidades que devem ornamentar um nobre cavaleiro.

À sua estatura extraordinária, que lhe permitia sobressair com a cabeça e até os ombros acima de qualquer multidão, unia a força de um touro e a coragem de um leão; contudo, todas essas qualidades eram suavizadas por grande cortesia e gentileza, que conquistavam a todos imediatamente. Sua piedade, tão fervorosa quanto equilibrada, manifestava-se no zelo pela fé, no escrupuloso cumprimento de seus deveres religiosos, na rígida moral e na austeridade de vida. Despojado de toda ambição pessoal, aceitou a dignidade real apenas por senso do dever. Seguindo uma política inspirada por seus sentimentos religiosos e patrióticos, Ladislau aliou-se estreitamente ao Papa Gregório VII e aos demais opositores do imperador Henrique IV da Alemanha. Abraçou a causa de Rodolfo da Suábia, rival de Henrique, e casou-se com Adelaide, filha do duque Guelfo da Baviera, o mais poderoso aliado de Rodolfo. Dentro do próprio território húngaro, precisou enfrentar numerosas invasões dos cumanos e de outras tribos, mas rechaçou todas elas e fez o possível para conduzir esses povos bárbaros à civilização e ao cristianismo. A seu pedido, a Santa Sé reconheceu como dignos de veneração o rei Santo Estêvão I, seu filho Santo Emérico e São Gerardo, bispo e mártir.

Ladislau governou com mão firme tanto os assuntos civis quanto os eclesiásticos, como ficou demonstrado durante a Dieta de Szabolcs e, posteriormente, quando sua irmã Helena, rainha dos croatas, lhe pediu auxílio contra os assassinos de seu esposo. O próprio Ladislau foi socorrê-la, restabeleceu a ordem na Croácia e estabeleceu a sede episcopal de Zagreb. Quando Helena morreu sem deixar filhos, Ladislau anexou a Croácia e a Dalmácia, apesar das promessas e ameaças do imperador de Constantinopla. Entretanto, o Papa Urbano II recorreu ao imperador em busca de apoio para organizar a Primeira Cruzada e os reis da França, da Espanha e da Inglaterra escolheram Ladislau como comandante supremo da expedição. Contudo, não chegou a partir com os cruzados, pois foi surpreendido pela morte na cidade de Nitra, na Boêmia, no início de 1095. Tinha apenas cinquenta e cinco anos de idade.
O corpo de São Ladislau foi levado para Nagyvárad (atual Oradea Mare, na Transilvânia), onde foi sepultado na cidade que ele próprio fundara e na catedral que construíra. Desde sua morte, passou a ser venerado como santo e herói nacional. Seus feitos inspiraram inúmeras baladas, cantigas e lendas populares entre os magiares. Suas relíquias foram solenemente depositadas em um santuário no ano de 1192.
Nos Acta Sanctorum, junho, vol. VII, os bolandistas publicaram uma série de lendas litúrgicas acompanhadas das habituais dissertações históricas. Provavelmente seja fonte mais confiável a biografia editada por S. L. Endlicher em Rerum Hungaricarum Monumenta Arpadiana (1849), pp. 235–244 e 324–338. Veja-se também Archiv für österreichische Geschichte (1902), pp. 46–53, e o artigo intitulado Saint Laszlo, publicado na Ungarische Revue de 1885. Existem diversas biografias em húngaro, entre as quais a de J. Karácsonyi (1926) parece ser a melhor. Ver ainda Revue Archéologique (1925), pp. 315–327, e C. A. Macartney, The Medieval Hungarian Historians (1953).1

Benvindo, natural de Gúbio, na Úmbria, era soldado de profissão e, como a maioria de seus conterrâneos, não sabia ler nem escrever. Possuía, porém, uma alma boa e, assim que entrou em contato com os franciscanos, deixou-se conquistar pelo espírito de paz e de bem e, em 1222, recebeu o hábito dos Frades Menores. Desde o momento em que ingressou na ordem, modelou inteiramente sua vida segundo a de São Francisco. Voluntariamente e por iniciativa própria, encarregou-se dos leprosos, cuidando deles com abnegação sem limites e chegando a lavá-los da cabeça aos pés. Ainda maior era o mérito de sua entrega, porque seus cuidados nasciam de um afeto sincero pelos que sofriam: tratava-os com extrema delicadeza, mesmo nos casos mais repugnantes e, além disso, ele próprio padecia de diversas enfermidades, que suportava sem jamais se queixar.
Passava grande parte da noite em oração e, frequentemente, durante a Missa, tinha a visão de um belíssimo Menino; nessas ocasiões, os frades viam Benvindo estender os braços como se quisesse alcançar a aparição. Sua conduta era tão exemplar que jamais recebeu qualquer censura ou repreensão. No entanto, sua santidade teria permanecido ignorada pelo mundo, escondida na vida recolhida da religião, se o Céu não o tivesse favorecido com raríssimas graças sobrenaturais, que difundiram sua fama por lugares muito distantes. Benvindo morreu na localidade de Corneto, na Apúlia, em 1232. Quatro anos após sua morte, os bispos de Veneza e de Amalfi solicitaram à Santa Sé que aprovasse seu culto e, para fundamentar o pedido, apresentaram uma relação de milagres. O Papa Gregório IX aprovou esse culto nas duas dioceses.
Não existe, ou ao menos não se conhece, uma biografia particular do Beato; veja-se o Acta Sanctorum, junho, vol. VII; Wadding, Annales O.M.; e Léon, Auréole Séraphique, vol. II, pp. 427–429.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, pp. 665-666.
2. Ibid. pp. 666-667.






















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