Vida de São Pedro Nolasco e São Pedro Tomás (28 de janeiro)
- 28 de jan.
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Pedro, que descendia da nobre família Nolasco do Languedoc, nasceu por volta do ano de 1189. Aos quinze anos perdeu o pai, que lhe deixou uma grande herança, e o jovem ficou sob a tutela de sua mãe, que favoreceu todas as suas boas aspirações. Quando chegou à idade de casar-se, Pedro começou a considerar seriamente a vaidade de todas as coisas terrenas. Numa noite, atormentado por esse pensamento, prostrou-se em oração até a manhã seguinte, consagrou sua castidade a Deus e prometeu repartir todo o seu patrimônio entre os pobres. Alguns autores afirmam que Pedro tomou parte na campanha de Simão de Montfort contra os albigenses. O conde venceu os hereges, derrotou e matou Pedro de Aragão na batalha de Muret e fez prisioneiro seu filho Jaime, que tinha cinco anos. Conta-se que o conquistador colocou o menino sob a tutela de Pedro Nolasco, que então tinha vinte e cinco anos, e que enviou ambos para a Espanha. Mas a maioria dos historiadores admite atualmente que não há provas suficientes para relacionar São Pedro com a campanha contra os albigenses, nem com a educação do futuro rei Jaime.
Naquela época, os mouros ocupavam a maior parte da Espanha, e uma enorme multidão de cristãos vivia na península e na África sob sua tirania. A compaixão pelos pobres sempre fora a virtude característica de Pedro. O triste espetáculo desses cristãos e a ideia dos perigos a que estavam expostos na fé e nas virtudes, sob tais senhores, comoveram o coração do santo, que logo começou a gastar sua fortuna no resgate de cativos. Sempre que via um escravo, exclamava: “Ajuntemos tesouros que não se corrompem”. Suas fervorosas exortações levaram outros a dar esmolas para libertar os prisioneiros. Finalmente, Pedro concebeu o projeto de fundar uma ordem religiosa encarregada de perpetuar essa obra de caridade. As dificuldades não foram poucas; mas conta-se que a Virgem apareceu a São Pedro, ao rei de Aragão e a São Raimundo de Penaforte, na mesma noite, e os animou a levar adiante o projeto, assegurando-lhes que não lhes faltariam seu patrocínio e sua proteção. São Raimundo, diretor espiritual de São Pedro e do rei Jaime, tornou-se um zeloso promotor da obra. O rei constituiu-se protetor da nova ordem e, para começar, cedeu-lhe uma dependência em seu palácio. Em 10 de agosto de 1223, o rei e São Raimundo conduziram São Pedro à igreja e o apresentaram a Berengário, bispo de Barcelona, que recebeu os três votos religiosos do santo. Ali mesmo ele fez um quarto voto, comprometendo-se a consagrar toda a sua fortuna e até a própria liberdade, se necessário, à redenção dos cativos. Seus seguidores fizeram o mesmo. São Raimundo pregou nessa ocasião e declarou que o Todo-Poderoso se dignara revelar ao rei de Aragão, a Pedro Nolasco e a ele próprio sua vontade, que consistia em fundar uma ordem religiosa encarregada do resgate dos cristãos prisioneiros dos infiéis.[a] O povo acolheu a notícia com imensa alegria. São Pedro recebeu o novo hábito das mãos de São Raimundo, que o nomeou superior geral da ordem e redigiu as regras e constituições. Outros dois nobres fizeram a profissão religiosa juntamente com São Pedro. Quando São Raimundo foi a Roma em 1235, obteve do Papa Gregório IX a confirmação da fundação e das regras.

Depois de conquistar o reino de Valência, o rei Jaime fundou ali algumas casas da ordem, uma delas na própria cidade de Valência. A cidade havia sido tomada com a ajuda das orações de São Pedro Nolasco, quando os soldados já desesperavam da vitória. O rei atribuiu todos os seus grandes triunfos sobre os infiéis, as conquistas de Valência e de Múrcia, às preces do santo. Quanto ao fim principal da ordem, São Pedro determinou que houvesse sempre entre os infiéis um par de religiosos encarregados da redenção dos cativos. Daí veio o nome de “redentores” dado aos mercedários. Um dos primeiros religiosos dedicados a esse ofício foi o próprio São Pedro, e Valência teve o privilégio de ser a primeira cidade em que o santo exerceu essa atividade. São Pedro não se contentava apenas em consolar e libertar multidões de cristãos, mas, com sua caridade e bom exemplo, tornou-se instrumento de Deus para levar muitos muçulmanos a crerem em Jesus Cristo. O santo fez várias viagens às regiões costeiras da Espanha ocupadas pelos mouros, bem como uma travessia à Argélia, onde foi feito prisioneiro. Mas nem os mais terríveis perigos eram capazes de fazê-lo desistir de seus esforços para converter os infiéis, pois o santo religioso era literalmente consumido pelo desejo do martírio.
São Pedro renunciou aos ofícios de superior geral e de “redentor” poucos anos antes de sua morte, ocorrida no dia de Natal de 1256. Em seus últimos momentos, exortou os religiosos à perseverança e concluiu com estas palavras do salmista: “O Senhor enviou a redenção ao seu povo e selou uma aliança para sempre”. Em seguida, encomendou sua alma a Deus, apelando para a caridade que fizera Jesus Cristo vir redimir-nos do cativeiro do demônio, e morreu. Tinha então sessenta e sete anos de idade. Deus honrou suas relíquias com muitos milagres. A canonização ocorreu em 1628.

O relato da vida de São Pedro Nolasco feito por Alban Butler, que acabamos de resumir sem nenhuma mudança substancial, representa a versão tradicional da Ordem [de Nossa Senhora] das Mercês. Mas devemos confessar que muito poucos desses dados escaparam aos ataques dos críticos, e o mínimo que se pode dizer é que tudo o que se refere à fundação da ordem está envolto em grande incerteza. As próprias fontes mercedárias não concordam quanto à data exata da fundação realizada na presença do bispo Berengário. Algumas a situam em 1218; outras em 1223, como afirma o artigo; outras ainda em 1228; o Pe. Vacas Galindo, O.P., em “São Raimundo de Penaforte” (1919), a situa em 1234. Como foi dito na vida de São Raimundo (23 de janeiro), houve uma violenta disputa entre os dominicanos e os mercedários acerca da importância do papel de São Raimundo na fundação da ordem. Os dominicanos lhe atribuem um papel de primeira importância, enquanto os mercedários asseguram que ele foi apenas o confidente de São Pedro e que, na época da fundação, era cônego em Barcelona e ainda não havia entrado na Ordem de São Domingos. Mas, na versão dos mercedários, há um ponto difícil de explicar: no início do século XVII, precisamente quando se insistia em Roma na canonização de São Pedro Nolasco, os mercedários “descobriram”, com estranha oportunidade, na parede do convento de Barcelona, um cofre cheio de documentos até então desconhecidos, que provavam com evidência irrefutável exatamente os pontos que os promotores da causa queriam demonstrar. O mais famoso desses documentos, conhecido pelo nome de “documento dos selos”, era uma ata notarial de 1260 — ao menos era isso que o próprio documento afirmava — destinada à Santa Sé, para provar a santidade de Pedro Nolasco. Ora, essa ata, que contém a narração da aparição de Nossa Senhora a São Pedro, ao rei Jaime e a São Raimundo de Penaforte (e que afirma que uma colmeia de abelhas construiu um favo na mão de São Pedro quando este ainda estava no berço), é atualmente considerada por todos os críticos como um documento fraudulento, apesar de ter sido, durante três séculos, o memorial mais autêntico da vida do santo. O próprio Pe. Gazulla, defensor dos mercedários, demonstrou numa conferência lida diante da Academia Literária de Barcelona sob o título “Al Margen de una Refutación” (1921), que Pedro de Bages, o notário que assina a ata de 1260, havia morrido antes de 4 de fevereiro de 1259. Uma vez que esse documento fundamental é espúrio, torna-se difícil conceder autenticidade aos outros documentos do famoso cofre. Mas seria inútil levar adiante esta discussão.
Ver o livro do Pe. Vacas Galindo, O.P., já mencionado; N. Pérez, Merc., San Pedro Nolasco (1915); M. Even, Une page de l’histoire de la charité (1918); Analecta Bollandiana, vol. XXXIX (1921), pp. 209 ss., e vol. XL (1922), pp. 442 ss.; e dois artigos do Pe. Kneller, S.J., em Stimmen aus Maria Laach, vol. II (1896), pp. 272 e 357. F. D. Gazulla publicou vários volumes sobre o ponto de vista dos mercedários, em particular uma refutação do livro do Pe. Galindo em 1920, e La Orden de N. S. de la Merced: Estudios histórico-críticos (1934), 1218–1317; sobre esta última obra, cf. Analecta Bollandiana, vol. V (1937), pp. 412–415.1
SÃO PEDRO TOMÁS, PATRIARCA TITULAR DE CONSTANTINOPLA (1366 p.c.)

A carreira de São Pedro Tomás é uma curiosa combinação de vocação religiosa e vida diplomática. Nasceu em 1305, de humilde linhagem, na aldeia de Salles, ao sudoeste da França. Em tenra idade entrou em contato com os carmelitas, que o receberam com alegria no noviciado de Condom. Em 1342, Pedro foi nomeado procurador-geral da ordem. Esse cargo levou-o a residir em Avinhão, que então era a sede dos Papas, e indica que o santo possuía todas as qualidades de um homem de negócios, não obstante seus elevados ideais de santidade. Sua notável eloquência logo o tornou conhecido; foi-lhe confiada a oração fúnebre de Clemente VI. Pode-se dizer que, a partir desse momento, embora conservasse a simplicidade de monge, consagrou a vida às negociações, como representante da Santa Sé. Seria impossível descrever aqui as complicadas circunstâncias políticas que exigiram sua intervenção; basta dizer que foi legado papal em negociações com Gênova, Milão e Veneza. Em 1354, foi consagrado bispo e representou o Papa em Milão, durante as cerimônias da coroação do imperador Carlos IV como rei da Itália. Dali passou à Sérvia e, mais tarde, foi-lhe confiada a missão de resolver as dificuldades surgidas entre Veneza e a Hungria. Em uma viagem a Constantinopla, recebeu a ordem de empreender um novo esforço para obter a reconciliação entre a Igreja bizantina e a ocidental.
O que mais surpreende, ao menos em nossa época, é que Inocêncio VI e Urbano V parecem ter colocado Pedro Tomás à frente de expedições de caráter claramente militar. Em 1359, foi enviado a Constantinopla com um forte contingente de tropas e uma boa soma de dinheiro, como “Legado Universal da Igreja do Oriente”; em 1365, foi novamente posto, praticamente, no comando das forças lançadas ao ataque da infiel Alexandria. Essa expedição terminou desastrosamente. O legado papal foi atingido por várias flechas durante o assalto. Três meses depois (6 de janeiro de 1366), morreu em Chipre e, como se disse que a morte sobreveio em consequência dos ferimentos, foi honrado como mártir.

É provável que uma das razões pelas quais os Papas confiaram a São Pedro Tomás tantas missões diplomáticas tenha sido seu senso de economia, já que o tesouro papal atravessava então momentos muito críticos, e o santo evitava toda pompa e ostentação desnecessárias. Por sua parte, desejava viajar do modo mais humilde possível e não se esquivava das grandes austeridades que tais expedições impunham, mesmo aos homens mais robustos. Tampouco devemos esquecer que, embora seus biógrafos escrevam num tom pouco crítico de panegírico, todos concordam em proclamar seu desejo de evangelizar os pobres, seu espírito de oração e a confiança que sua santidade inspirava a todos. A biografia de Mézières, que é nossa principal fonte, não oferece muitos detalhes de caráter mais íntimo; mas o melhor testemunho da impressão que o santo bispo causava em seus contemporâneos consiste precisamente no fato de que Filipe de Mézières, devoto cristão e eminente político, pôde falar de seu amigo em termos tão elogiosos e livres de toda inveja. Um decreto da Santa Sé, de 1608, concedeu aos carmelitas celebrar a festa de São Pedro Tomás, bispo e mártir; mas até agora não houve canonização formal.
Ver Acta Sanctorum, 29 de janeiro; P. Daniel, Vita S. Petri Thomae (1666); Parraud, Vie de St Pierre Thomas (1859); B. J. Smet, em The Life..., extraída da biografia do Pe. de Mézières (1954).2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 187-190.
2. Ibid. pp. 193-194.
Notas:
a. Os membros da Ordem de Nossa Senhora das Mercês são comumente chamados de “Mercedários”. Atualmente dedicam-se a toda espécie de obras de caridade e apostolado, embora conservem o voto de redimir cativos.






















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