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Vida de São Félix de Tibiuca e São Proclo de Constantinopla (24 de outubro)

há 19 horas
6 min de leitura

Atualizado: há 5 minutos





São Nabor e São Félix
São Nabor e São Félix.

No início da perseguição de Diocleciano, muitos cristãos entregaram aos perseguidores os livros sagrados para que fossem queimados. Alguns tentaram justificar seu proceder ou minimizar sua culpa, como se as circunstâncias pudessem desculpar a cooperação em um ato ímpio ou sacrílego. Félix, bispo da África Proconsular, longe de seguir o mau exemplo de tantos outros cristãos, sentiu-se antes estimulado a adotar uma conduta vigorosa e vigilante. O magistrado de Tibiuca, Magniliano, ordenou-lhe que entregasse todos os livros e escritos sagrados para que fossem queimados. O mártir respondeu que devia obedecer a Deus antes que aos homens, e então Magniliano o enviou ao procônsul de Cartago. 


Segundo o relato do martírio, o procônsul, enfurecido pela valente confissão do santo, mandou acorrentá-lo e encerrá-lo em uma terrível masmorra. Nove dias depois, enviou-o em um navio à Itália para que fosse julgado por Maximino. A travessia durou quatro dias; o bispo foi encerrado no porão do navio com os cavalos e não provou alimento nem bebida. Os cristãos de Agrigento, da Sicília e de todas as cidades por onde o santo passou o acolheram jubilosamente. Em Venosa da Apúlia, o prefeito mandou tirar-lhe as correntes e perguntou se realmente possuía livros sagrados e por que razão se recusava a entregá-los. Félix respondeu que não podia negar que possuía livros sagrados, mas que jamais os entregaria. Sem mais investigações, o prefeito mandou decapitá-lo. No local da execução, São Félix deu graças a Deus por sua bondade e logo inclinou a cabeça diante do carrasco, oferecendo-se em sacrifício Àquele que vive pelos séculos dos séculos. Tinha então cinquenta e seis anos. Foi uma das primeiras vítimas da perseguição de Diocleciano.


O Martírio de São Félix de Tibiuca, por Carlo Maratta
O Martírio de São Félix de Tibiuca, por Carlo Maratta

A lenda da deportação de São Félix à Itália e de seu martírio naquele país é uma invenção do hagiógrafo, que quis transformá-lo em um santo italiano. Está fora de dúvida que São Félix foi martirizado pelo procônsul de Cartago. Suas relíquias foram mais tarde trasladadas para a famosa “Basílica Faustina” daquela cidade.


O Pe. Delehaye publicou um notável estudo sobre o relato do martírio de São Félix em Analecta Bollandiana, vol. XXXIX (1921), pp. 241–276. Os materiais reunidos em Acta Sanctorum, outubro, vol. X, eram insuficientes. O Pe. Delehaye publicou os textos mais representativos dos dois principais grupos e fez uma reconstrução admirável do documento primitivo no qual se baseiam fundamentalmente as duas famílias de textos. Como dissemos acima, a deportação do mártir à Itália é uma invenção dos hagiógrafos posteriores, que adornaram livremente o texto original. Segundo afirma o Pe. Delehaye (cuja opinião coincide com a expressa por M. Monceaux em Revue Archéologique, 1905, vol. I, pp. 335–340), Félix foi condenado à morte pelo procônsul de Cartago. Ao que parece, o martírio teve lugar em 15 de julho, ou talvez em 16. A Festa foi transferida primeiro para 30 de julho e, mais tarde, para 24 de outubro, devido a certas confusões; sobre este ponto, cf. Delehaye e, sobretudo, Dom Quentin, Les Martyrologes Historiques, pp. 522–532 e 697–698.1




São Proclo de Constantinopla, por Pyotr Mikhailovich Shamshin
São Proclo de Constantinopla, por Pyotr Mikhailovich Shamshin

São Proclo era natural de Constantinopla. Recebeu a ordem do leitorado ainda muito jovem. Embora fosse discípulo de São João Crisóstomo, chegou a ser secretário de seu maior inimigo, Ático, bispo de Constantinopla, que lhe conferiu o diaconato e o sacerdócio. Após a morte de Ático, muitos quiseram eleger Proclo como bispo. Por fim, Sisínio foi eleito bispo de Constantinopla e nomeou Proclo bispo de Cízico. Contudo, os habitantes dessa cidade recusaram-se a aceitá-lo e elegeram outro em seu lugar. Assim, São Proclo permaneceu em Constantinopla, onde alcançou grande fama por sua pregação.


Quando Sisínio morreu, muitos voltaram a propor a candidatura de Proclo; mas o eleito foi Nestório, que logo começou a propagar seus erros. São Proclo defendeu corajosamente a verdade contra ele. No ano de 429, pregou um sermão no qual proclamou a maternidade divina da Virgem Maria. Nesse sermão encontrava-se a famosa frase: “Não proclamamos um homem divinizado, mas confessamos um Deus encarnado”. Nestório foi deposto, e Maximiano foi escolhido para sucedê-lo. Após a morte deste, no ano de 434, São Proclo, que nunca havia conseguido tomar posse da sede de Cízico, foi elevado à de Constantinopla.


Afresco de São Proclo de Constantinopla
Afresco de São Proclo de Constantinopla

A prudência e a bondade com que soube tratar os nestorianos mais obstinados e outros hereges constituem os traços mais característicos do santo. Os bispos armênios consultaram-no sobre a doutrina e os escritos de Teodoro de Mopsuéstia, que já havia morrido, mas continuava sendo muito famoso naquela região. São Proclo escreveu, em resposta, o “Tomo aos Armênios”, a mais célebre de suas obras. Nela, condenava a doutrina mencionada por sua afinidade com o nestorianismo e expunha a verdadeira doutrina sobre a Encarnação, tudo isso sem mencionar Teodoro, que havia morrido em comunhão com a Igreja e cuja memória era muito venerada. São Proclo exortava os armênios a seguirem a doutrina de São Basílio e São Gregório Nazianzeno, cujas obras eram muito estimadas entre eles. Outros polemistas foram menos moderados que São Proclo. Com a ajuda da imperatriz Santa Pulquéria, ele trasladou os restos mortais de São João Crisóstomo de Comana do Ponto para a Igreja dos Apóstolos, em Constantinopla. Todo o povo saiu em procissão para receber as relíquias, e os discípulos intransigentes de São João Crisóstomo finalmente se reconciliaram com seu bondoso sucessor.


Durante o episcopado de São Proclo, ocorreu um violento terremoto em Constantinopla. Os homens vagavam entre as ruínas, aterrorizados, procurando em vão um lugar onde se abrigar; muitos fugiram para o campo. Proclo, acompanhado de seu clero, saiu para socorrer seus fiéis, consolou o povo e exortou-o a implorar a misericórdia divina. O Menológio grego de Basílio, com base no testemunho de um cronista que escreveu três séculos e meio depois dos acontecimentos, relata que, enquanto o povo implorava a misericórdia divina, rezando o “Kyrie eleison”, uma criança foi arrebatada pelos ares até desaparecer de vista. Quando voltou à terra, a criança declarou ter ouvido os coros angélicos cantando: “Santo Deus, Santo e Forte, Santo Imortal”, e morreu imediatamente depois. O povo repetiu essas palavras e acrescentou: “Tende misericórdia de nós”. Então, os tremores cessaram. A partir daquele momento, São Proclo introduziu o “triságio” na liturgia. Não há certeza de que tenha sido realmente ele quem o introduziu, mas é certo que a primeira menção ao triságio data do Concílio de Calcedônia, realizado poucos anos depois, e é muito possível que São Proclo e seu povo tenham empregado essa oração durante o terremoto.


São Proclo de Constantinopla de Menológio de Basílio II
São Proclo de Constantinopla de Menológio de Basílio II

São Cirilo de Alexandria descreve São Proclo como “um homem muito religioso, perfeitamente familiarizado com a disciplina eclesiástica e muito observante dos cânones”.


Sócrates, o historiador grego, que o conheceu pessoalmente, escreve:


“Poucos poderiam igualá-lo em santidade. Era bondoso com todos, porque estava convencido de que a bondade serve melhor à causa da verdade do que a severidade. Por isso, estava decidido a não irritar nem provocar os hereges, restituindo assim à Igreja, em sua pessoa, a mansidão e a bondade que lhe são próprias e que, infelizmente, haviam faltado em tantos casos... Foi verdadeiramente um modelo de prelado”.


São Proclo morreu em 24 de julho de 446.


Algumas de suas cartas e sermões foram preservados. Alban Butler comenta:


“O estilo deste Padre é conciso, sentencioso, repleto de observações espirituosas, capazes mais de deleitar do que de comover o coração. É um estilo que pressupõe muito trabalho e estudo; embora este Padre o tenha empregado com grande êxito, seu estilo não pode ser comparado à gravidade cheia de naturalidade de um São Basílio, nem à suavidade de um São João Crisóstomo”.


Em Acta Sanctorum, outubro, vol. X, há um artigo bastante completo sobre São Proclo, elaborado com base em citações dos historiadores da Igreja e de outras fontes. Veja-se também F. X. Bauer, Proklos von Constantinopel (1918), e Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, vol. IV, pp. 202–208. Desde a publicação do texto siríaco do Bazar de Heraclides, tem-se discutido muito a respeito da verdadeira doutrina de Nestório, de modo que a literatura sobre o assunto é muito extensa; veja-se o artigo “Nestório” em DPC.2



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 191-192.

2. Ibid. pp. 192-193.



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