Vida de Santo Alexandre Sauli e São Gomário de Lier (11 de outubro)
Atualizado: há 16 horas

Conta-se que Alexandre Sauli ainda era muito jovem quando, certo dia, apresentou-se diante de uma multidão que assistia a um espetáculo de acrobatas e saltimbancos, com um crucifixo na mão, e pregou severamente contra aquele tipo de diversão frívola, para grande espanto de todos os presentes. Embora o santo talvez tenha exagerado ao agir assim, esse gesto pode ser considerado um símbolo de sua vida, já que se consagrou inteiramente à restauração da ordem cristã em meio à negligência e frieza religiosas do século XVI. Alexandre nasceu em Milão, em 1535, mas sua família era originária de Gênova. Aos dezessete anos, ingressou na Congregação dos Clérigos Regulares Barnabitas. Seus superiores o enviaram para prosseguir os estudos no colégio da congregação em Pávia, e o santo pagou do próprio bolso a ampliação da biblioteca da instituição. Em 1556, após sua ordenação sacerdotal, começou a ensinar filosofia e teologia na Universidade. O bispo da cidade logo o tomou por seu teólogo, e a reputação de Alexandre como pregador cresceu rapidamente. O êxito em Pávia foi tão grande que São Carlos Borromeu o convidou para pregar em sua catedral; a seus sermões assistiram o próprio São Carlos e o cardeal Sfondrati, que mais tarde se tornaria o Papa Gregório XIV. As ardentes palavras do jovem barnabita arrancaram lágrimas de ambos, que o tomaram como confessor; São Carlos manteve com ele uma estreita direção espiritual por muitos anos. Em 1567, o Pe. Sauli foi eleito preposto geral da sua congregação. Embora tivesse apenas trinta e oito anos, mostrou-se firme o suficiente para opor-se à opinião de São Pio Ve de São Carlos Borromeu. De fato, o cardeal Borromeu, protetor dos poucos “Humiliati” que restavam, recebera a missão de reformá-los, pois esses religiosos eram ricos, mas de costumes pouco edificantes. Decidiu, então, uni-los à fervorosa congregação dos barnabitas. Contudo, São Alexandre, embora disposto a ajudar os “Humiliati”, recusou-se a aceitar uma medida que poderia prejudicar seus filhos espirituais, e São Carlos teve de renunciar a seu propósito.

A firmeza e o zelo apostólico de São Alexandre não passaram despercebidos ao grande reformador São Pio V, que o nomeou, em 1570, bispo de Aléria, na Córsega, apesar de suas resistências. São Carlos Borromeu conferiu-lhe a consagração episcopal, e o novo bispo partiu para sua diocese. A tarefa diante dele era imensa: o clero era ignorante e corrompido; o povo, ainda bárbaro, mal possuía noções de religião; a ilha estava infestada de bandidos, e as violentas vinganças entre famílias eram frequentes. São Alexandre levou consigo três barnabitas para auxiliá-lo. Logo ao chegar a Tallona — pois a cidade episcopal estava em ruínas — convocou um sínodo e anunciou as reformas que pretendia implementar. Em seguida, iniciou a visita pastoral, aplicando as novas leis com o rigor necessário. Seu governo durou vinte anos, e a transformação na ilha foi tamanha que passou a ser chamado o Apóstolo da Córsega. No terceiro sínodo diocesano, promulgou os decretos do Concílio de Trento, cuja aplicação firme foi o principal fator de reforma dos costumes. Enfrentou não só a oposição de seus subordinados, mas também a violência de estranhos, pois os piratas berberes frequentemente atacavam a ilha. Por isso, foi obrigado a mudar três vezes de residência e, finalmente, estabeleceu em Cervione sua catedral, seu cabido e seu seminário.

Durante seu episcopado, viajou várias vezes a Roma, onde tornou-se grande amigo de São Filipe Néri, que o considerava modelo de prelados. Era profundo canonista e escreveu várias cartas pastorais e obras catequéticas. Tendo obtido grande êxito na Córsega, ofereceram-lhe as dioceses de Tortona e Gênova, mas recusou mudar-se até que Gregório XIV o obrigou, por obediência, a aceitar o governo da diocese de Pávia, em 1591. Deus o chamou a Si no ano seguinte, quando visitava a diocese em Calozza. Durante a vida, São Alexandre possuía o dom de profecia e de acalmar tempestades. Os milagres continuaram após sua morte, e sua canonização ocorreu em 1904.
Nos Acta Sanctorum, outubro, vol. V, há uma biografia de São Alexandre escrita por seu contemporâneo J. A. Gabutius. Por ocasião da canonização, a Rivista di Scienze Storiche (1905–1908) publicou diversos documentos de grande valor, graças à diligência do Pe. O. Premoli, também autor da excelente obra Storia dei Barnabiti (2 vols., 1914, 1922). A biografia de F. T. Moltedo (1904) é menos documentada; mencione-se ainda a biografia francesa de A. Dubois (1904). Sobre seus escritos, veja-se G. Boffito, Scrittori Barnabiti (1933–1934).1

São Gomário era filho do senhor de Emblem, localidade situada nas proximidades de Lier, em Brabante. Embora não soubesse ler nem escrever, entrou para o serviço da corte de Pepino, onde se destacou pelo fiel cumprimento de seus deveres e pela caridade com que praticava as obras de misericórdia. Pepino o elevou a um cargo importante e arranjou-lhe o casamento com uma jovem de boa família chamada Guinimária.
Embora tal união não parecesse muito feliz aos olhos do mundo — pois Guinimária era extravagante, perversa, cruel, caprichosa e indisciplinada —, Deus serviu-se dela para conduzir Seu servo aos cumes da perfeição. É desnecessário dizer que a vida de São Gomário, a partir do casamento, tornou-se uma série de duras provações.
O santo esforçou-se durante anos, com prudência e caridade, para melhorar sua esposa e atraí-la à prática da religião. Depois, teve de ausentar-se por oito anos a serviço do rei Pepino na guerra. Quando voltou para casa, encontrou suas posses mal administradas e que poucos de seus vassalos haviam escapado da opressão. Guinimária era tão pouco generosa que se recusava até mesmo a dar um pouco de cerveja aos que colhiam a safra. Gomário tratou imediatamente de restituir a cada um de seus servos o que lhes era devido. Aparentemente, Guinimária deixou-se tocar pela prudência e bondade do marido e parecia disposta a corrigir-se; mas pouco tempo depois, voltou a ser dominada por seu péssimo caráter. Gomário ainda tentou ajudá-la, mas finalmente desistiu e retirou-se para a vida solitária.2

Diz-se que alguns anos depois, desejoso de empreender duma peregrinação a Roma, partiu com alguns amigos, Na tarde do primeiro dia de jornada, acamparam no prado dum rico homem, tendo os servidores que o acompanhavam, e aos amigos, cortado uma bela arvora para construir-lhes uma grande tenda, tal ato suscitou séria discussão entre os servidores e o proprietário das terras, que apareceu de repente.
Gomário, doce e gentil, depois de grandes esforços, tendo apaziguado a cólera do homem em cujos campos pararam, conseguiu autorização para ali permanecerem até a manhã seguinte. E o Santo, tomando dois pedaços da árvore, porque os servidores dela tinham feito dois postes, uniu-os apertadamente com o seu cinto, e todo sinal de que havia sido cortada desapareceu.
Abismado, o dono daquelas paragens tudo fez para que Gomário aceitasse aquele terreno. Recusando, o Santo acabou por aceitar a doação - uma vez que, à noite, um anjo, aparecendo-lhe na forma duma branca pomba, ordenou-lhe que não continuasse a peregrinação, aceitasse as terras e nelas construísse um oratório. Diz-se que São Gomário fundou, juntamente com São Rumoldo, o oratório (ou abadia) que mais tarde recebeu o nome de Ledon ou Lierre.
Logo, surgiu uma capela que Gomário dedicou a São Pedro. Ali, na fundação, São Gomário levou vida de contemplativo, enquanto que, em Emblehem, onde às vezes ia, fazia vida ativa, dedicando-se febrilmente às obras de misericórdia. São Gomário adoeceu, e morreu no mesmo dia - 11 de Outubro de 775. Estava, então, em Emblehem, mas foi levado para Lierre e ali enterrado.
Nos Acta Sanctorum, outubro, vol. V, encontram-se uma biografia em verso e outra em prosa latina. P. G. Deckers estudou profundamente a vida de São Gomário em Leven en eerdienst van den h. ridder Gummarus (1872). Cf. T. Paaps, De hl. Gummarus, christische studie (1944).3
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, pp. 90-91.
2. Ibid. p. 88.
3. Vida dos Santos, Pe. Rohrbacher, vol XVIII, pp. 106-107.






















Comentários