Vida de Santa Escolástica e São Guilherme de Maleval (10 de fevereiro)
- Sacra Traditio

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Por São Gregório sabemos que esta santa, irmã gêmea de São Bento, segundo a tradição, consagrou-se a Deus desde a mais tenra idade. Não se sabe se vivia em sua casa ou em alguma comunidade religiosa, mas há dados de que, quando seu irmão residia em Monte Cassino, ela se encontrava em Plombariola, provavelmente fundando e governando um mosteiro, a cerca de oito quilômetros de distância do convento de São Bento. São Gregório nos diz que São Bento era superior tanto de monjas quanto de monges, e parece evidente que Santa Escolástica devia ser a abadessa das monjas dirigidas por seu irmão. Tinha o costume de visitar São Bento uma vez por ano e, como não lhe era permitido entrar no mosteiro, ele saía ao seu encontro para levá-la a uma casa de confiança, onde os irmãos passavam a noite orando, cantando hinos de louvor a Deus e discutindo assuntos espirituais.
São Gregório faz uma descrição notável da última dessas visitas. Depois de terem passado o dia como de costume, sentaram-se à mesa para a refeição e então Escolástica, talvez pressentindo que não tornaria a ver o irmão, rogou-lhe que não partisse naquela noite, mas apenas no dia seguinte, para ter a oportunidade de passar o tempo dialogando sobre as alegrias do Céu. Bento não era capaz de quebrar suas regras permanecendo uma noite fora do mosteiro e, como os pedidos de Escolástica se mostrassem inúteis, ela recorreu a Deus com uma oração fervorosa para que interviesse em seu auxílio. Mal havia terminado sua prece, quando irrompeu uma tempestade tão violenta que São Bento e seus companheiros se viram obrigados a permanecer na cela. O santo repreendeu Escolástica com estas palavras: “Deus te perdoe, irmã; o que fizeste?” Ao que ela respondeu: “Pedi-te um favor e tu o recusaste. Pedi-o a Deus, e Ele mo concedeu”. Convencido Bento da intervenção divina, mostrou-se disposto a fazer o que sua irmã desejava, e ambos passaram a noite falando das coisas santas e dos bem-aventurados que já gozavam de uma felicidade à qual ambos aspiravam ardentemente. Ao nascer do sol, separaram-se, e três dias depois Santa Escolástica morreu.

São Bento estava então sozinho em sua cela, absorto em oração, e teve a visão da alma de sua irmã subindo ao Céu sob a forma de uma pomba. Cheio de alegria, deu graças a Deus e saiu para anunciar aos irmãos a morte de Escolástica. Por sua ordem, alguns monges foram buscar o corpo e lhe deram sepultura em um túmulo que já haviam preparado. No mesmo lugar foi enterrado São Bento quando morreu e, como diz o cronista: “Assim, um mesmo sepulcro reuniu os corpos daqueles cujas almas sempre estiveram intimamente unidas no Senhor”. Ao que parece, suas relíquias foram trasladadas para a França no século VII e depositadas em Le Mans.
Não sabemos praticamente nada de Santa Escolástica, exceto o resumo dos dois capítulos dos Diálogos de São Gregório, vol. II, pp. 33-34.1

Nada sabemos sobre a origem e a família deste santo, que ao que parece foi francês. Crê-se que serviu como soldado na juventude e que levou uma vida dissoluta. Os primeiros relatos definidos que possuímos datam de 1145, quando Guilherme seguia como penitente em peregrinação a Roma. Ali pediu ao Papa Eugênio VI, posteriormente beatificado, que lhe impusesse uma penitência, e o Pontífice lhe ordenou que visitasse os Lugares Santos em Jerusalém. Empregou oito anos para preparar e realizar a viagem e, uma vez de regresso à Toscana, retirou-se para um lugar solitário a fim de continuar a penitência, até que foi convencido a assumir o governo de um mosteiro no território de Pisa. Contudo, considerando-se incapaz de acabar com o relaxamento e a desordem que imperavam no convento, retirou-se para o mosteiro de Monte Pruno. Ali encontrou os monges igualmente relaxados e não menos rebeldes à disciplina do que os anteriores, razão pela qual decidiu então levar, na solidão, uma vida de mortificação e piedade. Com esse propósito, estabeleceu-se em um vale deserto e árido situado na região de Siena, pelo qual ninguém se atrevia a passar, e cujo nome latino “Stabulum Rodis” ele mudou desde então para Maleval. A partir de setembro de 1155, permaneceu naquela solidão, vivendo em uma caverna, sem comer outra coisa além de ervas e raízes e sem ver outro ser vivente, exceto os animais selvagens. Assim se passaram quatro meses, até que o castelão dono daquelas terras, compadecido do eremita, mandou que lhe construíssem uma cela no deserto. Quase ao mesmo tempo, uniu-se a São Guilherme um discípulo chamado Alberto, que viveu com ele até sua morte, ocorrida treze meses depois. Foi Alberto quem relatou a vida de penitência e oração de São Guilherme.

O santo instruiu seu discípulo nas práticas de mortificação e piedade, inculcando-as mais eficazmente com o exemplo, que era mais para admirar do que para imitar. São Guilherme tinha o dom da profecia e operava milagres. Pouco antes de sua morte, um médico chamado Reinaldo uniu-se aos anacoretas. Alberto e ele enterraram o corpo de São Guilherme diante da caverna, e ambos permaneceram ali, mantendo as regras de vida do santo. Logo chegaram mais discípulos ao local, e a pequena comunidade pôde construir uma capela sobre a tumba do fundador e uma ermida para se abrigarem. Esse foi o início dos Eremitas de São Guilherme, que depois se estenderam pela Itália, França, Flandres e Alemanha. Mais tarde, muitos deles se uniram aos frades eremitas agostinianos.
Veja-se o Acta Sanctorum, fevereiro, vol. I, e o Kirchenlexikon, vol. XII, cc. 1609-1611; BHL., nn. 8922-8923. Uma das biografias do santo, intitulada Guilherme o Grande, é atribuída a Teobaldo, arcebispo de Canterbury; porém há muitas dúvidas sobre a autenticidade desse dado. Cf. Heimbucher, Die Orden und Kongregationen, vol. I (1907), p. 180.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 300-301.
2. Ibid. p. 304.


























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