Vida de São Cuteberto de Lindisfarne e Os Mártires do Mar Saba (20 de março)
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Não se conhece nada com certeza acerca da linhagem e do lugar de nascimento de São Cuteberto. Os hagiógrafos irlandeses o declaram irlandês, enquanto os cronistas saxões sustentam que nasceu nas terras baixas (Lowlands) da Escócia. De acordo com a biografia em verso de Beda, foi bretão e o próprio autor, no prefácio à história em prosa de São Cuteberto, afirma claramente que não escreveu nada que não estivesse bem comprovado. O nome de Cutberto é sem dúvida saxão e não celta. A primeira notícia que temos sobre ele data de quando tinha oito anos e estava aos cuidados de uma viúva chamada Kenswith, a quem considerava como mãe e que o tratava como filho. Era então um jovem saudável, vivaz, gracioso e o líder dos meninos da região, a todos os quais podia vencer em corridas, saltos e lutas. Um dia, em meio às suas brincadeiras, um menino começou a chorar exclamando: “Ó, Cuteberto! Como podes perder tempo em jogos inúteis, tu, a quem Deus escolheu para ser sacerdote e bispo?”. Essas palavras causaram uma impressão tão profunda em sua alma que, desde aquele momento, começou a comportar-se com uma maturidade incomum para sua idade. O ofício de pastor de rebanhos que exercia lhe deu amplas oportunidades de comunicar-se tranquilamente com Deus nas grandes pradarias solitárias da Nortúmbria. Por volta do fim de agosto de 651, Cuteberto, então com 15 anos de idade, teve uma visão que o decidiu a consagrar sua vida a Deus. A um claro dia de verão seguiu-se uma noite escura, sem lua e sem estrelas; Cuteberto estava sozinho e em oração. De repente, um raio de luz deslumbrante brilhou através do céu negro e nele apareceu uma multidão de anjos que levavam, como em um globo de fogo, uma alma ao Céu.
Mais tarde, soube que o bispo São Aidano (ou Edano) havia morrido naquela noite em Bamborough. Embora este tenha sido, de fato, o momento decisivo de sua vida, naquela ocasião não parece ter deixado o mundo. Sugeriu-se que poderia ter sido chamado a lutar contra os mércios, pois, a cavalo e armado com espada, apareceu repentinamente à porta da abadia de Melrose e pediu para ser admitido entre os irmãos. Não sabemos se São Boisil, o prior, tinha conhecimento prévio dele ou se leu instantaneamente os pensamentos de seu coração; mas, no momento em que Cuteberto desmontou, tornou-se um dos monges e disse o prior: “Eis um servo do Senhor”. No ano 660, o abade de Melrose recebeu terras para outro mosteiro e, sobre uma elevação na confluência dos rios Ure e Skell, construiu-se a abadia de Ripon, para onde São Eata veio em 661, trazendo Cuteberto consigo como encarregado de atender aqueles que buscassem refúgio no mosteiro.
Lemos que, numa fria manhã de inverno, ao entrar no quarto de hóspedes, encontrou um estrangeiro instalado ali; conforme o costume, trouxe água, lavou as mãos e os pés do visitante e lhe ofereceu alimento. O hóspede recusou educadamente, dizendo que não podia esperar porque a casa para onde se dirigia com certa pressa ainda estava distante. Cuteberto, porém, insistiu e saiu para conseguir algo de comida. Ao voltar, encontrou a cela vazia e sobre a mesa havia três pães de singular brancura e qualidade. Não havia pegadas na neve ao redor da abadia, e São Cuteberto teve a certeza de que havia hospedado um anjo.

A permanência de Eata e Cuteberto na abadia de Ripon foi breve. Um ano depois, o rei Alhfrith transferiu a abadia a São Wilfrido e, segundo o relato de Beda, “Eata com Cuteberto e o restante dos irmãos que havia trazido consigo, voltaram para casa e o lugar do mosteiro que haviam fundado foi ocupado por outros monges”. Cuteberto voltou a Melrose. Todo o país sofria o flagelo de uma enfermidade conhecida como “a peste amarela” e Cuteberto não escapou dela. Contudo, quando lhe disseram que os monges haviam passado a noite rezando por sua recuperação, ele exclamou: “O que estou fazendo na cama? É impossível que Deus tenha fechado os ouvidos a tais homens! Deem-me minhas roupas e meus sapatos”. Levantando-se, imediatamente começou a caminhar; sua vontade pareceu triunfar momentaneamente sobre sua doença; mas, na realidade, nunca recuperou plenamente a saúde. Em sua aflição, os homens e mulheres haviam voltado, como nos conta Beda, a colocar sua fé em talismãs e amuletos. A fim de assistir o povo abatido e reavivar o cristianismo, São Cuteberto empreendeu um extenuante esforço missionário que durou todos os anos em que foi prior, primeiro em Melrose e depois em Lindisfarne. Viajou através de montes e vales, algumas vezes a cavalo, outras a pé, preferindo sempre as aldeias mais remotas, pois estas tinham menos oportunidades de ser visitadas. Como São Aidano (ou Edano), ensinava de casa em casa, mas enquanto este ia sempre acompanhado de um intérprete por não conhecer o dialeto, Cuteberto podia falar aos camponeses em sua própria língua e com seu próprio sotaque nortumbriano. Conhecia a geografia, pois havia percorrido as terras com seus rebanhos, podia penetrar na vida de seus ouvintes e contentava-se com alimentação frugal. Seu aspecto sereno e sua palavra alegre e persuasiva logo conquistaram a boa vontade dos habitantes, de modo que seus ensinamentos tiveram extraordinário sucesso. Levou o Evangelho desde a costa de Berwick até o estuário de Solway e por onde passava era recebido e honrado como hóspede.
Em Coldingham, onde visitou um mosteiro, um monge que o observava notou seu costume de levantar-se silenciosamente à noite, quando os irmãos dormiam, e dirigir-se à praia, onde entrava no mar e, com a água até o pescoço, cantava louvores a Deus.
Uma lenda que ainda circula entre os habitantes da costa fala de duas lontras — com maior probabilidade focas — que seguiram o santo sobre as rochas e lamberam seus pés entorpecidos, aquecendo-os com suas peles até devolver-lhe o calor.
Se devemos crer na tradição de que São Cuteberto visitou os pictos na região de Galloway, deve ter sido de Coldingham que partiu com dois companheiros e chegou ao estuário de Nith no dia seguinte ao Natal. Devido aos montes de neve, não puderam avançar além da costa, enquanto uma série de tempestades tornava impossível o retorno por mar e estiveram em perigo de morrer de fome. Os dois companheiros desanimaram, mas a fé de Cuteberto nunca vacilou. Assegurou-lhes que tudo terminaria bem e, pouco depois, descobriram ao pé de um rochedo alguns golfinhos mortos, dos quais retiraram carne com que se sustentaram até que a tempestade cessou e puderam novamente lançar-se ao mar. Diz-se que uma igreja foi construída depois para marcar o local e que o nome da cidade de Kirkcudbright, que surgiu ali perto, conserva a memória da visita de São Cuteberto.
Entretanto, grandes mudanças haviam ocorrido em Lindisfarne e houve momentos em que parecia que o mosteiro da “Ilha Santa” perderia a famosa comunidade que o tornara o santuário mais venerado do norte. As disputas sobre a data da Páscoa culminaram no célebre Concílio de Whitby, onde o rei Oswiu decidiu a favor do uso romano. São Colmano voltou a Lindisfarne, mas logo decidiu que não podia adaptar-se e preferiu renunciar. Seguido por todos os monges irlandeses e trinta ingleses, levando consigo o corpo de São Aidano (ou Edano), deixou a Inglaterra e fundou novas casas na Irlanda. Para substituí-lo, Santo Eata foi chamado de Melrose e nomeado bispo. Cuteberto o acompanhou novamente para atuar como prior. Sua tarefa não foi fácil, pois muitos dos monges que permaneceram eram contrários às inovações. Eata e Cuteberto, quaisquer que fossem seus sentimentos, estavam decididos a apoiar as decisões do Concílio de Whitby. Tiveram de enfrentar oposição e até insultos, mas a conduta de Cuteberto foi acima de qualquer elogio: nunca perdeu a paciência ou o domínio de si; porém, quando os descontentes se tornavam demasiado agressivos, retirava-se tranquilamente e encerrava a discussão, retomando-a quando a paixão se acalmava. A vida de São Cuteberto em Lindisfarne foi semelhante à que levara em Melrose. Desempenhou suas atividades apostólicas entre o povo, pregando, ensinando e servindo não apenas às almas, mas também aos corpos, mediante o dom de curar que lhe foi concedido. Por onde passava, multidões o seguiam para ouvi-lo, abrir-lhe o coração e pedir-lhe que curasse seus enfermos. Os dias não eram suficientes e, às vezes, passava em vigília três de cada quatro noites, entregando-se à oração à beira-mar, recitando os Salmos enquanto caminhava pela igreja ou meditando enquanto realizava algum trabalho manual em sua cela.

Depois de alguns anos em Lindisfarne, a saudade de uma vida de união mais íntima com Deus o levou, com a anuência de seu abade, a buscar a solidão. Sua primeira ermida não ficava longe da abadia; provavelmente em uma pequena ilha vizinha de Hoy Island, à qual as tradições locais o associam e chamam Ilha de São Cuteberto. O lugar, seja qual tenha sido, não lhe pareceu suficientemente isolado, pois em 676 se transferiu para uma fria e desolada ilha do grupo Farne, a duas milhas de Bamborough. O local estava então despovoado e, no início, não lhe forneceu nem água nem sementes, mas encontrou uma fonte e, embora a primeira semeadura tenha fracassado completamente, a segunda, que foi de cevada, produziu o suficiente para seu sustento. Os visitantes persistiam em ir vê-lo, apesar das tempestades que então, como sempre, rugiam ao redor das ilhas, por isso São Cuteberto construiu uma hospedaria perto do desembarque para acolher seus visitantes. Apenas uma vez deixou seu retiro e foi a pedido da abadessa Santa Elfleda, filha do rei Oswi. Esse encontro teve lugar na ilha de Coquet. Elfleda o instou nessa ocasião a aceitar o episcopado que o rei Egfrido desejava ardentemente lhe conceder. Foi nomeado bispo de Hexham, mas recusou-se a abandonar sua ilha e somente consentiu quando o rei Egfrido foi pessoalmente a Farne, acompanhado do bispo Trumwin. Cuteberto cedeu com grande dificuldade em assumir a diocese de Lindisfarne, mas exigiu que lhe fosse permitido permanecer em sua ermida durante os seis meses que faltavam para sua consagração. Durante esse período visitou Santo Eata e acertou uma troca de dioceses. Eata ficaria com Hexham e Cuteberto teria a sede de Lindisfarne e cuidaria do mosteiro.
Na Páscoa de 685, foi consagrado em York Minster por São Teodoro, arcebispo de Canterbury. Como bispo, o santo “continuou sendo o mesmo homem de antes”, para citar seu biógrafo anônimo. Os dois anos de seu episcopado foram empregados principalmente em visitar sua diocese, que se estendia para o oeste até Cumberland. Pregou, ensinou, distribuiu esmolas e realizou tantas curas milagrosas que mereceu, ainda em vida, o nome de “o Taumaturgo da Bretanha”, título que manteve após sua morte, devido às curas realizadas em seu túmulo. Ao fazer sua primeira visita a Carlisle, poucas semanas após sua consagração, soube por um estranho dom de telepatia ou por revelação divina do desastre do exército nortumbriano e da morte do rei Egfrido durante a batalha. O reaparecimento da epidemia seguiu-se à derrota militar e foi tão severo que muitos povoados ficaram completamente desertos. O bom bispo, sem nenhum temor, caminhou entre seus fiéis administrando os sacramentos e grandes consolações aos doentes e moribundos; sua simples presença devolvia a esperança e frequentemente a saúde. Em certa ocasião, reanimou com um beijo o filho de uma viúva, no qual a vida parecia já ter se extinguido.
Os trabalhos e austeridades, porém, haviam debilitado a constituição de São Cuteberto, que percebeu que não viveria por muito tempo. Durante sua segunda visita a Carlisle, disse a seu antigo discípulo São Herberto, o eremita de Derwentwater, que não voltariam a se encontrar na terra, consolando o amigo aflito com a promessa de obter do Céu a graça de morrer no mesmo dia. Depois de uma visita de despedida à sua diocese, deixou o báculo pastoral e, após celebrar o Natal de 686 com os monges em Holy Island, dirigiu-se à sua amada Farne para preparar-se para a morte. “Dizei-nos, senhor bispo”, perguntou um dos monges que se reuniram para despedi-lo, “quando podemos esperar que volte?” “Quando tiverdes de transportar o meu corpo”, foi a resposta. Seus irmãos o visitaram com frequência durante os três últimos meses, embora ele não permitisse que ninguém permanecesse para servi-lo em sua enfermidade, que se agravava continuamente. Em estado febril, travou terríveis combates contra os espíritos do mal durante um período tempestuoso de cinco dias, quando ninguém podia aproximar-se da ilha. Queria ser sepultado em seu retiro, mas cedeu aos pedidos de seus monges, que desejavam que seus restos repousassem entre eles na abadia. “Enterrar-me-ão”, disse, “envolto no pano que guardei para minha mortalha”. Suas últimas instruções foram dadas ao abade Herefrido que, sentado ao seu lado, lhe pedia uma mensagem para os irmãos.
“Tende um só pensamento em vossos conselhos, vivei em concórdia com os outros servos de Deus; não desprezeis nenhum dos fiéis que buscam vossa hospitalidade; tratai-os com caridade, não vos considerando melhores que outros que têm a mesma fé e frequentemente vivem a mesma vida. Mas não comungueis com aqueles que se afastam da unidade da fé católica. Estudai com diligência, observai cuidadosamente as regras dos padres e praticai com zelo a regra monástica que Deus se dignou dar-vos por meu intermédio. Sei que muitos me desprezaram, mas depois de minha morte se verá que meus ensinamentos não mereceram desprezo”.

Estas foram as últimas palavras de São Cuteberto, recebidas por Beda dos lábios de Herefrido. Dito isso, recebeu os últimos sacramentos e morreu cheio de paz, sentado, com as mãos erguidas e os olhos voltados para o céu. Imediatamente depois, um monge subiu ao rochedo onde hoje se ergue o farol e agitou duas tochas acesas — pois era noite — para anunciar aos irmãos de Lindisfarne que o grande santo havia passado ao descanso eterno. Seu corpo, que inicialmente foi depositado na abadia e permaneceu em Lindisfarne por 188 anos, foi trasladado quando os povos do norte começaram a descer para a costa e, após muitas transferências, foi colocado em um magnífico santuário na Catedral de Durham, que, até a Reforma, continuou sendo o principal local de peregrinação da Inglaterra. Durante o reinado de Henrique VIII, o santuário foi profanado e saqueado, mas os monges, em segredo, enterraram as relíquias. Em 1872, o corpo de São Cuteberto foi novamente descoberto e todos os objetos pelos quais foi identificado foram levados para a biblioteca da Catedral. Embora geralmente se admita que as relíquias são autênticas, existe ainda outra tradição segundo a qual os restos de São Cuteberto permanecem ainda enterrados em outra parte da Catedral, conhecida apenas por três membros da congregação dos beneditinos ingleses, que transmitem o segredo antes de morrer.
Em geral, representa-se São Cuteberto segurando em suas mãos a cabeça do rei Oswaldo. Este foi enterrado com ele e seus restos foram encontrados quando o caixão do bispo foi aberto e examinado em Durham, em 1104. Algumas vezes, as compassivas lontras aparecem a seus pés, mas com maior frequência ele é representado acompanhado de um pássaro, que provavelmente é uma das aves silvestres, conhecidas como pássaros de São Cutberto, cujos bandos nidificam nas ilhas Farne. Contam-se belas lendas sobre a amizade do santo com essas criaturas, às quais domesticou, prometendo-lhes que nunca seriam perturbadas. Duas cópias antigas dos Evangelhos estão especialmente relacionadas com o santo. Uma delas é o famoso Evangelho de Lindisfarne, do século VII, depositado pelo escriba que o escreveu sobre o túmulo de São Cuteberto e que foi belamente ornamentado por São Wilfrido. Foram acidentalmente lançados ao mar pelos monges que os levavam para a Irlanda, mas as ondas os devolveram à praia sem nenhum dano. Encontram-se agora no Museu Britânico. A outra cópia é o Evangelho de São João, do século VII, que foi enterrado com São Cuteberto e é uma das mais estimadas posses do Colégio de Stonyhurst. O anel do santo está guardado em Ushaw.
A vida de São Cuteberto foi quase uma oração contínua. Tudo o que via lhe falava de Deus e sua conversação tratava habitualmente de coisas celestiais. Beda diz:
“Estava inflamado pelo fogo da caridade divina; considerava equivalente a um ato de oração aconselhar e ajudar os fracos, sabendo que aquele que disse, ‘Amarás o Senhor teu Deus’, também acrescentou, ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”.
Como em muitas dioceses inglesas do norte, a festa deste grande santo é celebrada em Saint Andrews e em Meath. Em Hexham celebra-se a festa de sua trasladação, no dia 4 de setembro.
Nossas fontes de informação, no que se refere a São Cuteberto, gozam de excepcional autenticidade e confiança. Nenhum historiador medieval merece mais respeito do que Beda e os detalhes suplementares de datas posteriores — especialmente no que se refere a trasladações, etc., fornecidos por Simeão de Durham (cujas obras completas foram editadas na coleção Rolls Series) e aos descobrimentos feitos quando o túmulo foi aberto em 1827 (para o qual veja-se Saint Cutbert (1828) de Raine, autor a quem pouco agradavam os monges) — também confirmam as narrativas primitivas. Grande parte da informação incidental encontra-se nas notas à edição de Plummer da Ecclesiastical History de Beda. Os aspectos arqueológicos da questão podem ser estudados no catálogo de Haverfield e do cônego Greenwell, Inscribed Stones, etc., e em Durham, vol. I, da Victoria County History. O relato irlandês de São Cuteberto foi impresso no oitavo volume das publicações da Surtees Society. A primeira vida anônima do santo foi editada juntamente com a que escreveu Beda por Fr. Stevenson, que também publicou uma boa tradução inglesa (1887) da vida de Beda. Existe uma biografia muito completa, escrita por C. Eyre (1849), que é extremamente útil por seus planos e mapas; outra, escrita pelo preboste Consitt (1887) e, para alguns milagres em Farne, veja-se Analecta Bollandiana, vol. LXX (1952), pp. 5-19. Veja-se também Craster, na English Historical Review, abril de 1954 (importante pelos traslados das relíquias).1

A história dos sofrimentos suportados pelos monges do Mar Saba, entre Jerusalém e o Mar Morto, foi narrada de forma vívida por um deles, Estêvão o Taumaturgo, conhecido também como “o poeta”, pelos hinos que compôs. Durante muito tempo, os árabes vinham devastando a Palestina, incendiando mosteiros e saqueando igrejas, de modo que os monges da “laura” de São Sabas hesitavam entre permanecer ou partir. Tendo chegado à conclusão de que seu mosteiro seria, com toda certeza, destruído se o abandonassem, decidiram ficar, na esperança de que, por causa de sua pobreza, pudessem escapar ilesos. Pouco tempo depois, um grupo de árabes avançou desde as colinas e, quando alguns dos monges saíram para suplicar que os deixassem em paz, exigiram-lhes dinheiro. Em vão os irmãos asseguraram que haviam se consagrado à pobreza e que nada possuíam; os recém-chegados os encerraram e entraram no edifício para revistar as celas e a igreja. Não puderam encontrar nada de valor e, depois de profanar o templo e queimar algumas das ermitas, afastaram-se. Cerca de trinta dos monges haviam sido feridos, mas Tomás, o enfermeiro, os tratou. Os monges repararam os danos como puderam e voltaram à sua vida habitual. Uma semana depois, enquanto se encontravam na igreja fazendo sua vigília sabatina, um velho irmão de cabelos brancos, do mosteiro de São Eutímio, trouxe-lhes uma carta na qual se advertia que os saqueadores se preparavam para voltar. Em seu pânico, os eremitas trataram de esconder-se e Sérgio, o sacristão, ocultou os vasos sagrados, o único tesouro que possuíam.
Os saqueadores não tardaram a reaparecer e procuraram os monges, muitos dos quais foram tirados de seus esconderijos. O primeiro a sofrer a morte foi o sacristão, que havia fugido, temeroso de que, ao ser torturado, revelasse o lugar onde havia escondido os vasos sagrados. Quando lhe ordenaram que voltasse, recusou-se e apresentou o pescoço nu à espada do carrasco.
João, o hospedeiro, foi encontrado no topo da colina, perto da casa de hóspedes que estava sob sua responsabilidade. Foi apedrejado, teve os tendões cortados e depois arrastado pelos pés sobre as rochas até a igreja, onde os árabes esperavam obrigá-lo a revelar o local onde estavam escondidos os tesouros. Fracassaram as tentativas dos atacantes, mas João foi asfixiado com fumaça e deixado ali. Patrício tentou salvar o que tinha escondido, entregando-se ele mesmo quando o inimigo descobriu a entrada de seu esconderijo. Ele e outros foram colocados em uma caverna, cuja entrada os árabes fecharam com espinhos e feixes de lenha aos quais atearam fogo. A densa fumaça penetrou na caverna, sufocando e cegando as pobres vítimas. Em intervalos, seus verdugos aproximavam-se para tirá-los através das brasas fumegantes e, após interrogá-los, voltavam a colocá-los, amontoando mais combustível na entrada da caverna. Finalmente, depois de terem saqueado e incendiado os edifícios de sua igreja, partiram, levando consigo tudo o que podiam transportar. Dos monges que haviam sido conduzidos à caverna, dezoito morreram asfixiados. A maioria dos restantes estava agonizante.
A narração grega encontra-se completa no Acta Sanctorum, março, vol. III. Veja-se também Delehaye, Synax. Constant., p. 548, em cujo texto os saqueadores são chamados etíopes.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 1, pp. 606-611.
2. Ibid. pp. 612-613.


















