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Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro)

14 de set. de 2025
6 min de leitura

Atualizado: 14 de set.

A Crucificação de Cristo, por Giotto (1266–1337)
A Crucificação de Cristo, por Giotto (1266–1337)

Segundo nos ensinam o Martirológio Romano e a leitura dos maitines (ou matinas), a Igreja do Ocidente celebra neste dia a veneração às relíquias da Cruz de Cristo em Jerusalém, em 614, depois que o imperador Heráclio as recuperou das mãos dos persas, que as haviam levado quinze anos antes. De acordo com a história, ao recuperar o madeiro precioso, o imperador quis carregar uma Cruz, como havia feito Cristo, através da cidade, com toda a pompa possível. Mas, tão logo o imperador, com o madeiro ao ombro, tentou entrar num recinto sagrado, não conseguiu fazê-lo e ficou como paralisado, incapaz de dar um passo. O patriarca Zacarias, que ia ao seu lado, indicou-lhe que todo aquele esplendor imperial estava em desacordo com o aspecto humilde e doloroso de Cristo quando levava a cruz pelas ruas de Jerusalém. Então, o imperador despiu-se do manto de púrpura, tirou a coroa e, com simples vestes, descalço, avançou sem dificuldade, seguido por todo o povo, até deixar a cruz no lugar onde antes se venerava a verdadeira. Os fragmentos desta se encontravam no cofre de prata dentro do qual os persas a haviam levado e, quando o patriarca e os clérigos abriram o cofre, todos veneraram as relíquias com muito fervor. Os escritores mais antigos sempre se referem a essa porção da cruz no plural e a chamam “pedaços de madeira da verdadeira Cruz”. Naquele tempo, a cerimônia revestiu-se de grande solenidade: fizeram-se ações de graças, e as relíquias foram expostas para que os fiéis pudessem beijá-las e, afirma-se, que nessa ocasião muitos enfermos ficaram curados.


A Exaltação da Santa Cruz, por Luigi Gregori
A Exaltação da Santa Cruz, por Luigi Gregori

Na Igreja do Oriente, a Festa da Exaltação Universal da Santa Cruz Vivificadora é uma das maiores do ano e comemora, principalmente, a descoberta da Santa Cruz e (atualmente no dia anterior) as dedicações das igrejas do Santo Sepulcro e do Calvário pelo imperador Constantino. A peregrina Etéria, que visitou os santos lugares no século IV, nos diz que aquelas dedicações se celebravam no mesmo dia da descoberta da Santa Cruz; em tempos mais antigos, no Oriente, as festividades da Cruz se relacionavam com a descoberta, as dedicações e uma visão que teve São Cirilo de Jerusalém no ano de 351, mais do que com a recuperação das relíquias pelo imperador Heráclio. Parece certo que o 14 de setembro era a data original da comemoração da descoberta, mesmo em Roma, mas foi substituída pela Exaltação do triunfo de Heráclio e a Descoberta no dia 3 de maio, de acordo com um costume gálico. Mons. Duchesne declara que este dia da Santa Cruz em setembro é uma festividade que se originou na Palestina, “no aniversário da dedicação da basílica erguida por Constantino no lugar do Calvário e a que edificou no Santo Sepulcro”. “Essa festividade das dedicações”, acrescenta, “foi celebrada no ano de 335 pelos bispos que assistiam ao Concílio de Tiro, que pronunciou a sentença de deposição contra Atanásio. Também estava associada a ela a comemoração da descoberta da verdadeira Cruz”, que foi “exaltada” diante do povo reunido.1



Numa versão mais detalhada vemos o seguinte:


Exaltação da Santa Cruz no Les très riches heures du duc de Berry.
Exaltação da Santa Cruz no Les très riches heures du duc de Berry.

Cosroes II, rei da Pérsia, tinha invadido a Síria com um poderoso exército e conquistado a capital Jerusalém. Foi responsável pelo massacre de 80 mil homens e levou consigo muitos prisioneiros, entre os quais o Patriarca Zacarias. Mas, para os cristãos, mais doloroso do que tudo isso foi o fato de ele ter levado a Santa Cruz do nosso Salvador, a qual, depois de muitos esforços, fora descoberta pela imperatriz Santa Helena. O rei pagão levou-a consigo para a Pérsia, adornou-a magnificamente com pérolas e pedras preciosas e colocou-a no topo de seu trono real feito de ouro puro.


Profundamente angustiado com esse infortúnio, e não dispondo de um exército grande o suficiente para enfrentar um tão poderoso inimigo, Heráclio, o piedoso imperador bizantino, fez propostas de paz. Empolgado com muitas vitórias, Cosroes recusou-se, inicialmente, a ouvir a proposta do imperador, mas acabou consentindo, sob a condição de que Heráclio abandonasse a fé em Cristo e adorasse o Sol, deus dos persas. 


Indignado com um pedido tão perverso, o imperador, vendo que se tratava de uma questão religiosa ligada à honra do Altíssimo, interrompeu todas as negociações com seu ímpio inimigo. Refugiando-se na oração, reuniu todos os soldados cristãos dos seus domínios e ordenou a todos os seus súditos que apaziguassem a ira do Todo-Poderoso e pedissem sua ajuda, jejuando, rezando, dando esmolas e realizando outras boas obras. Ele mesmo lhes deu o exemplo. 


O Imperador Heráclio mata o rei da Pérsia, pintura holandesa do século XV.
O Imperador Heráclio mata o rei da Pérsia, pintura holandesa do século XV.

Depois disso, reunindo corajosamente um exército relativamente pequeno, ele foi ao encontro do arrogante Cosroes, depois de dar ordens estritas para que seus soldados, além de abster-se de outros vícios, evitassem todos os saques e blasfêmias, para que pudessem ser achados dignos da assistência divina. Encorajou seus soldados apontando para um crucifixo que trazia na mão e dizendo que deveriam se questionar pela honra de quem estavam lutando. Disse também que não havia nada mais glorioso do que enfrentar a morte pela honra de Deus e de sua santa religião. 


Fortalecido com essas palavras, o exército cristão marchou contra o inimigo. Em três ocasiões foram atacados por três divisões do exército persa, cada uma liderada por um general experiente, e nas três repeliram o inimigo, de tal forma que, por fim, o próprio Cosroes teve de fugir. Siroes, seu filho mais velho, a quem ele excluíra da sucessão ao trono, aproveitou a oportunidade e assassinou não só o próprio pai, mas também seu irmão, Merdasas (ou Mardanxá), colaborador de Cosroes e herdeiro presuntivo do trono.


Para assegurar a coroa conquistada à força, Siroes (ou Cavades II) ofereceu a paz a Heráclio, restituiu-lhe as províncias conquistadas e enviou também a Santa Cruz, o Patriarca Zacarias e todos os outros prisioneiros de guerra. Com grande alegria, Heráclio foi às pressas a Jerusalém com o inestimável madeiro, para agradecer ao Todo-Poderoso a vitória e devolver ao seu devido lugar a Santa Cruz, que os persas conservaram em seu poder durante catorze anos. 


“O Imperador Heráclio carrega a Cruz ao Calvário”, por Jacopo Palma, o Jovem.
O Imperador Heráclio carrega a Cruz ao Calvário, por Jacopo Palma, o Jovem.

Todos os habitantes da cidade, o clero e os leigos, foram ao encontro do piedoso imperador, que decidira levar a Cruz ao Monte Calvário, à igreja preparada para recebê-la. Formou-se uma procissão solene, da qual participaram o patriarca, os cortesãos e uma imensa multidão de pessoas. Precedido pelo clero, o imperador, vestido com suntuosos trajes de governo, levava a Santa Cruz ao ombro. Depois que atravessaram a cidade, chegaram à porta que conduz ao Calvário, e, de repente, o imperador parou e não conseguiu sair do lugar. Todos ficaram assustados com o fato, sem saber o que pensar dele. Mas a verdade do milagre fora revelada por Deus a Zacarias, que, voltando-se para o imperador, disse: “Cristo não estava vestido com esplendor quando passou com a Cruz por este portão. Sua fronte não estava adornada com uma coroa de ouro, mas com uma feita de espinhos. Talvez, ó imperador, teu magnífico manto seja a causa de não conseguires avançar.”


O piedoso Heráclio humildemente deu ouvidos às palavras do patriarca, despojou-se de sua púrpura imperial e vestiu-se com roupas pobres, tirou a coroa da cabeça e os sapatos dos pés. Feito isso, o tesouro sagrado foi novamente colocado em seu ombro. Então, eis que nada mais o deteve, e ele o carregou até o local de seu destino. Em seguida, o santo patriarca depositou a Cruz no antigo lugar e venerou-a devidamente com todos os presentes.


Uma relíquia da Verdadeira Cruz sendo transportada em procissão pela Praça de São Marcos, em Veneza, por Gentile Bellini (1429–1507)
Uma relíquia da Verdadeira Cruz sendo transportada em procissão pela Praça de São Marcos, em Veneza, por Gentile Bellini (1429–1507)

Deus manifestou, por meio de muitos milagres efetuados no mesmo dia, o quanto estava satisfeito com a homenagem prestada à Santa Cruz de Cristo. Um morto ressurgiu ao toque do lenho sagrado; quatro paralíticos recuperaram o uso de seus membros; quinze cegos recuperaram a visão; muitos doentes recuperaram a saúde; e vários possessos foram libertados do demônio ao tocarem nele com devoção.2


Ver L. Duchesne em Christian Worship (1919), pp. 274-275, 522-523 e 570-571; Bludau em Die Pilgerreise der Etheria (1927), pp. 185-190. A menção mais antiga da festa da Exaltação da Santa Cruz, com esse nome, no Ocidente, aparece na nota do Papa São Sérgio I (morto em 701) no Liber Pontificalis, ed. de Duchesne, vol. I, pp. 374-378. Ver também K. A. Kellner em Heortology (1908), pp. 333-341; DAC, vol. III, cc. 3131-3139. Há um resumo muito útil em Vies des Saints de Baudot e Chaussin, vol. V (1947), pp. 63-78. Cf. também o que se diz nesta obra no dia 3 de maio.



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 562-563.

2. Lives of the saints: compiled from authentic sources with a practical instruction on the life of each saint, for every day in the year, v. 2. New York: P. O’Shea, 1876, p. 336ss.

Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 564-565.

Uma parte tirado do artigo "O Imperador e a Cruz", Pe. Franz X. Weninger, S.J.



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