Vida de Santa Teodota e Beato Carlos de Blois (29 de setembro)

Supõe-se que Santa Teódota sofreu o martírio em Filipópolis, cidade da Trácia, durante a perseguição desencadeada pelo augusto Licínio, quando este ainda professava o paganismo e estava em guerra com Constantino, o Grande. As atas afirmam que durante uma festa em honra de Apolo, o prefeito Agripa ordenou que todos os habitantes da cidade oferecessem sacrifícios ao deus. Teódota recusou-se e foi acusada de desobediência. O prefeito interrogou-a, e ela respondeu que certamente era uma grande pecadora, mas não queria acrescentar uma nova culpa às muitas que havia cometido contra Deus, caso concordasse em participar de uma cerimônia sacrílega. Teódota foi encerrada na prisão, onde permaneceu por vinte dias. Quando foi novamente conduzida à presença dos juízes, começou a chorar e, em voz muito alta, rogou a Cristo que lhe perdoasse os pecados passados e lhe concedesse força para suportar com paciência os tormentos que estava prestes a padecer. Submetida aos interrogatórios, confessou que até então havia sido uma prostituta, mas que era cristã, embora se considerasse indigna de levar esse nome, e que não estava disposta a renegar suas crenças. Agripa ordenou que fosse açoitada. Os que permaneceram junto dela durante a flagelação exortavam-na a obedecer às ordens do prefeito para livrar-se dos tormentos, mas Teódota permaneceu firme.
Depois dos açoites, foi suspensa em postes, e seu corpo foi dilacerado com ganchos de aço. Durante a tortura, rezava com estas palavras: “Só a Ti adoro, ó Cristo, e Te dou graças porque me consideraste digna de sofrer em Teu nome”. O prefeito, enfurecido com a tenacidade daquela mulher, ordenou ao carrasco que derramasse vinagre e sal sobre suas feridas. Ao ouvir a sentença, a infeliz respondeu: “Tão pouco temo teus tormentos que te peço que os aumentes, os prolongues e os tornes mais cruéis, a fim de que eu possa obter maior misericórdia e minha coroa seja mais gloriosa”. O tormento seguinte ordenado por Agripa foi que lhe arrancassem os dentes, um por um, com tenazes de ferro. Por fim, Teódota foi condenada a morrer apedrejada. Seu corpo sem forças, banhado em sangue e dilacerado, mas ainda com vida, foi transportado pelos carrascos para os arredores da cidade, onde começaram a lançar-lhe pedras, enquanto ela elevava a voz em oração: “Ó Cristo! Tu que foste misericordioso com Raab, a prostituta; Tu que acolheste no céu o bom ladrão, concede-me a Tua misericórdia!” Morreu dessa maneira, e sua alma voou triunfante para o Céu.
Os bolandistas não incluíram essa narrativa no Acta Sanctorum. Um texto siríaco da mesma foi publicado pela primeira vez por Assemani em sua obra Acta Sanctorum Orientalium et Occidentalium, vol. II, pp. 210–226. A senhora A. Smith-Lewis reproduziu esses textos em uma forma mais acessível à leitura em sua obra Studia Sinaitica, vol. X.1

Este santo, pertencente a uma das famílias reais da França e que teve a desgraça de passar nove anos prisioneiro na Torre de Londres, veio ao mundo em Blois, no ano de 1320; seu pai era Guy de Châtillon, conde de Blois, e sua mãe, Margarida, era irmã de Filipe VI, rei da França. Desde a infância, Carlos demonstrou que possuía grandes virtudes naturais, uma coragem à toda prova e que estava maravilhosamente dotado para destacar-se na alta dignidade em que havia nascido. Em 1337, casou-se com Joana da Bretanha e, por esse matrimônio, obteve para si o ducado da Bretanha. Mas esse título lhe foi disputado por João de Montfort e, como era costume naqueles tempos, a querela converteu-se em uma guerra feudal que se prolongou durante toda a existência de Carlos. Este fez tudo o que esteve ao seu alcance para restabelecer a concórdia, sobretudo para aliviar o peso dos impostos de guerra que recaía sobre seus súditos, e afirma-se que chegou até mesmo a propor a Montfort que pusessem fim ao assunto de uma vez por todas, mediante um combate pessoal, até a morte, entre ambos. Mas o adversário não aceitou. Após uma das inúmeras batalhas, as forças de Carlos de Blois tomaram a cidade de Nantes, e a primeira medida que adotou o conde ao entrar na praça conquistada foi distribuir abundantes socorros entre os pobres e necessitados; o mesmo fez em Rennes, em Guingamp e em outras cidades. Durante suas campanhas, fundou igrejas e casas religiosas, onde pudesse orar por sua causa e pelas almas dos que haviam morrido nas batalhas. De modo geral, comportava-se de tal maneira que o menos devoto de seus soldados comentava com os companheiros que o conde estava destinado mais a ser monge do que guerreiro. Descalço e mal coberto por um hábito rasgado, empreendeu uma peregrinação ao santuário de São Ivo, em Tréguier e, quando pôs cerco à cidade de Hennebont, dispensava os soldados de montar guarda para que assistissem à Missa. Por essa razão, protestou um dos oficiais. “Senhor meu”, replicou-lhe Carlos, “sempre teremos cidades e castelos para conquistar. Se os perdermos, Deus nos ajudará a recuperá-los. Também a Missa a temos com frequência, mas é impossível deixarmos de assisti-la”. A bem da verdade, Carlos era tão bom soldado quanto bom cristão, mas detestava a guerra. Contava com o apoio do rei da França, enquanto seu inimigo, João de Montfort, tinha a ajuda do rei Eduardo III da Inglaterra, o qual, por razões que só ele conhecia, havia anunciado sua firme intenção de recuperar as propriedades que “por herança legal” possuía na França. Durante quatro anos, Carlos conseguiu conter seus inimigos, mas em 1346 começaram seus reveses e infortúnios. Ao fim de tudo, a França foi derrotada pela Inglaterra na batalha de Crécy, a cidade de Poitiers foi saqueada e a de Poitou quase destruída. Logo depois, Carlos de Blois travou uma furiosa batalha em La Roche-Derrien, perto de Tréguier, foi derrotado, capturado e embarcado em uma nau rumo à Inglaterra.

Desde sua chegada foi encerrado na sinistra Torre de Londres e pediu-se uma soma fabulosa por seu resgate. Como era quase impossível reunir tanto dinheiro, o conde passou nove anos na infecta prisão. Como fizeram tantos prisioneiros na Torre, antes e depois de Carlos de Blois, este tornou mais suportável seu castigo e até o santificou pela paciência com que o suportava e por suas constantes orações. Sua resignação e a tranquila mansidão que mostrava nas dificuldades conquistaram-lhe a simpatia e a admiração dos carcereiros. Assim que obteve sua liberdade, retornou à França e continuou na luta armada durante outros nove anos, para defender seu ducado da Bretanha, com períodos de boa e má fortuna, mas adquirindo sempre maior respeito e admiração por parte do povo que governava. Fez outra peregrinação à igreja da Bonne Nouvelle em Rennes e, durante muito tempo, acreditou-se que esse ato de piedade tinha como propósito comemorar uma das batalhas que havia vencido, mas comprovou-se posteriormente que não havia outro motivo para a peregrinação senão a devoção do beato.
O último encontro armado teve lugar em Auray, em 29 de setembro de 1364. As forças inglesas estavam sob o comando de Sir John Chandos. Os franceses, com Bertrand de Guesclin à frente, foram derrotados. Guesclin foi feito prisioneiro e, no curso da sangrenta batalha, Carlos de Blois, o homem que sempre havia desejado ser um frade franciscano e não um príncipe, caiu morto no campo. Seus restos foram sepultados em Guingamp e não tardou muito para que circulassem insistentemente rumores de numerosos milagres em seu túmulo. Apesar dos fortes protestos de João de Montfort, que temia perder o apoio da Inglaterra caso seu rival fosse proclamado santo, iniciou-se um movimento em favor da canonização de Carlos de Blois. Afirma-se que o Papa Gregório XI chegou a decretar a canonização de Carlos, mas, no tumulto e na confusão da partida do Papa de seu exílio em Avinhão, em 1376, a bula não foi assinada nem promulgada. Contudo, o povo continuou o culto ao Beato Carlos, e em algumas partes celebrava-se uma Festa especial em sua honra. Finalmente, no ano de 1904, o antigo culto ao beato foi confirmado pelo Papa São Pio X.
Os bolandistas mencionam Carlos de Blois entre os praetermissi de 29 de setembro, no Acta Sanctorum, e fazem referência à obra do Papa Bento XIV, De Beatificatione, lib. 2, cap. 8. Veja-se o Monuments du procès de canonisation du B. Charles de Blois (1921), de A. de Sérent, que incluiu na obra o relato escrito por Dom Plaine, em 1872, sobre o Beato Carlos. Consulte-se também G. Lobineau, em Histoire de Bretagne (1744), vol. II, pp. 540-570; N. Maurice-Dénis-Boulet, em La Canonisation de Charles de Blois, nota publicada na Revue d’histoire de l’Église de France, vol. XXVIII (1942), pp. 216-224.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 708-709.
2. Ibid. pp. 712-714.






















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