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Festa da Impressão dos Estigmas de São Francisco de Assis (17 de setembro)

17 de set. de 2025
7 min de leitura

Atualizado: 17 de set.


São Francisco de Assis recendo os Estigmas, por Mestre da Coroação da Virgem de Biella (Master of the Coronation of the Virgin of Biella)
São Francisco de Assis recendo os Estigmas, por Mestre da Coroação da Virgem de Biella (Master of the Coronation of the Virgin of Biella)

No mês de agosto de 1224, São Francisco de Assis retirou-se do mundo durante uma temporada para comunicar-se com Deus nas cumeadas de La Verna, uma montanha deserta dos Apeninos. Na ocasião, acompanhavam-no o irmão Leão e outros cinco ou seis frades, mas Francisco queria estar à parte e escolheu sua morada numa choça solitária, sob uma faia, no lado oposto do monte; e, antes de se enclausurar ali, deu instruções a seus irmãos para que nenhum se aproximasse de sua habitação, exceto Leão quando tivesse de levar-lhe alimentos. Mais ou menos na data da Festa da Exaltação da Santa Cruz, o santo orava diante de sua choça, elevava sua alma a Deus com ardor seráfico e sentia-se arrebatado por uma profunda caridade, uma terna e afetuosa compaixão para com Aquele que foi crucificado por amor a nós. Estava nesse estado quando viu a figura do que parecia um serafim com seis asas brilhantes, que descia do alto dos céus em voo rapidíssimo até permanecer suspenso no ar diante do santo. Então pôde ver, entre as asas do serafim, a figura de um Homem Crucificado, com as mãos e os pés estendidos e pregados na Cruz. As asas do serafim estavam dispostas de maneira diferente: as duas superiores erguiam-se para cima, sobre a cabeça do crucificado; as do meio estavam estendidas para o voo, e o par inferior dobrava-se sobre si mesmo, como para cobrir ou sustentar o corpo do crucificado.


Estigmatização de São Francisco, por Giotto di Bondone (1266–1337)
Estigmatização de São Francisco, por Giotto di Bondone (1266–1337)

À vista de semelhante aparição, o coração de Francisco ficou tomado por um súbito gozo, misturado a um profundo sentimento de dor. A presença próxima de seu Senhor, sob a forma de um serafim, que fixava nele os olhos com um olhar bondoso e amável, produzia-lhe um júbilo imenso; mas, ao mesmo tempo, a visão de seu corpo crucificado traspassava-lhe a alma de dor. Naquele momento, uma luz interior fez compreender ao santo que, se bem a condição do crucificado não correspondia à imortalidade do serafim, a maravilhosa visão manifestava-se para que pudesse entender que ia ser transformado numa semelhança de Jesus Cristo na Cruz, não no martírio da carne, mas no coração, pelo fogo de seu amor. De repente, o serafim aproximou-se mais e feriu o santo em corpo e alma, de maneira que Francisco experimentou uma dor intensa e sentiu grande temor, até que o serafim falou para explicar-lhe muitas coisas que até então lhe estavam ocultas. Passados alguns instantes, que lhe pareceram séculos, a visão desapareceu. Mas a alma do santo ardia no interior do corpo, que parecia ter recebido a imagem do Crucificado com tal força que nela ficou impressa, como se sua carne houvesse sido marcada por um selo impresso por uma força sobrenatural e extraordinária. Nas mãos e nos pés do santo começaram a abrir-se feridas semelhantes às que contemplara na visão do Homem Crucificado. No centro de suas mãos e de seus pés abriram-se quatro perfurações que pareciam os buracos deixados por quatro grossos cravos fincados na carne. Em torno das feridas, sobre as palmas das mãos e sobre os pés, via-se a marca redonda e negra da cabeça dos cravos; as pontas longas apareciam pelo reverso e rasgavam a pele, porque estavam tortas, como se houvessem sido batidas com um martelo. Também no lado direito do santo abriu-se uma ferida vermelha que parecia feita pela ponta de uma lança.


São Francisco de Assis recebe os estigmas, por Federico Barocci
São Francisco de Assis recebe os estigmas, por Federico Barocci

De todas aquelas chagas manava sangue que tingia as vestes do santo. Esse prodigioso milagre realizou-se ao mesmo tempo em que o entendimento de Francisco se enchia de ideias claras sobre Cristo Crucificado, e o amor que inundava seu coração empregava-se com toda a força de sua vontade em concentrar-se no objeto amado e em assimilar-se ao Ser amado nos instantes de maiores sofrimentos; de modo que, pelas faculdades imaginativas de sua alma, formava-se um segundo crucificado com uma realidade tão viva que as impressões de sua mente afetaram a matéria de seu corpo. As marcas exteriores das feridas na carne de São Francisco, que o amor interno de seu coração não podia produzir, foram causadas pelo serafim de fogo, ou melhor dizendo, pelo próprio Cristo, que na visão havia lançado raios incandescentes desde as cinco chagas para plasmar exteriormente em São Francisco aquelas dolorosas marcas que já o amor do santo havia impresso interiormente em sua alma.


Quer fosse ou não fosse São Francisco o primeiro dos seres humanos marcado dessa maneira pelos “estigmas” (do grego stigmata, que significa “marcas”) de Nosso Senhor Crucificado, não há dúvida possível de que ele é o mais famoso dos exemplos e o mais autêntico desde então até os tempos recentes e atuais. Além disso, é o único prodígio dessa classe que toda a Igreja ocidental comemora com uma festa litúrgica. A realização e o desenvolvimento geral do fenômeno estão fora de dúvida. O irmão Leão o relata na nota que escreveu de próprio punho sobre as “bênçãos seráficas” concedidas a São Francisco, documento que os frades conventuais de Assis conservam. Também se refere a isso o irmão Elias, na carta que escreveu aos frades da França para anunciar a morte do patriarca em 1226.


“Desde o princípio dos tempos” – escreve o irmão – “não se tinha visto maravilha semelhante, salvo no caso do Filho de Deus, que é Cristo, Nosso Senhor. Durante muito tempo antes de sua morte, nosso pai e irmão parecia crucificado e apareciam em seu corpo as cinco chagas que são verdadeiramente os Estigmas de Cristo; porque em suas mãos e seus pés estavam abertos, de parte a parte, cinco buracos como os que fazem os cravos enfiados de cima para baixo; eram chagas abertas, negras perfurações com a forma dos cravos; também seu lado parecia ter sido traspassado por uma lança e muitas vezes manava sangue de todas as chagas”.


Na biografia mais antiga do santo, escrita entre dois e quatro anos depois de sua morte, os estigmas são descritos desta maneira:


“Suas mãos e seus pés pareciam traspassados por cravos cujas cabeças haviam deixado marcas sobre as palmas das mãos e sobre as partes anteriores dos pés, enquanto as marcas das pontas apareciam no dorso das mãos e nas plantas dos pés. Ora, essas marcas eram redondas nas palmas das mãos e no peito dos pés, enquanto pelo reverso eram alongadas e apresentavam protuberâncias, como se as pontas dos cravos tivessem projetado para fora porções da carne e como se essas pontas houvessem sido dobradas a golpes, de modo que rasgavam a pele. Igual forma e caráter tinham as marcas nas plantas dos pés. Além disso, no lado direito tinha uma chaga aberta em forma de meia-lua, com bordas, semelhante à que faria a ponta de uma lança, e de onde saía sangue com frequência...”


São Francisco de Assis recebendo os estigmas, por Giovanni Battista Tiepolo
São Francisco de Assis recebendo os estigmas, por Giovanni Battista Tiepolo

“O Livro dos Milagres”, escrito por uma testemunha ocular dos fatos que descreve (Tomás de Celano), uns vinte anos depois de ocorridos, acrescenta que as multidões que acudiram a Assis “puderam ver em suas mãos e seus pés, não as feridas, mas os próprios cravos, maravilhosamente formados pelo poder de Deus e verdadeiramente cravados na carne, mas de forma estranha, como se formassem parte da própria carne e de tal modo que, se se pressionava de um lado, formavam uma protuberância no lado oposto e, ao deixar de pressionar, voltavam ao lugar original”. A declaração mencionada antes e que Alban Butler toma das “Florezinhas”, no sentido de que “as pontas dos cravos sobressaiam e estavam dobradas sobre si mesmas até formar um gancho quase fechado, no qual se podia meter o dedo da mão como por um anel”, remonta aos anos anteriores a 1274, mas os críticos mais severos e minuciosos inclinam-se a rejeitar sua veracidade e a considerá-la fantasia literária, visto que não se registrou nenhum caso semelhante entre outros seres humanos que, posteriormente, foram estigmatizados. Naturalmente, em nenhuma das declarações se chega sequer a insinuar que os mencionados “cravos” tivessem sido feitos de outra substância que não carne ou cartilagem. E não se pode garantir que fossem cartilagens; é mais provável supor que fossem, por sua forma e aspecto, sugestões de cravos ou, simplesmente, cicatrizes protuberantes. De qualquer modo, aquelas marcas não têm ponto de comparação com as de outros estigmatizados.


Fotografia do Padre Pio de Pietrelcina com os estigmas
Fotografia do Padre Pio de Pietrelcina com os estigmas

O caso da estigmatização foi confirmado por muitos exemplos que ocorrem inclusive na atualidade; os estigmatizados sangram com frequência e até com certa periodicidade, especialmente às sextas-feiras, e não se registrou nenhum caso em que as feridas supurassem. Por conseguinte, pode-se dizer que Deus escolhe certas almas nobres para uni-las mais estreitamente aos sofrimentos de seu Divino Filho, almas estas que se oferecem e que são dignas de expiar os pecados de outros, ao adotar diante do mundo a forma de Jesus crucificado, que “não aparece retratado em telas ou lâminas, nem esculpido em pedra ou madeira pela mão de um artista terreno, mas que fica impresso e gravado na própria carne pelo Dedo do Deus vivo”. Entre o grande número de supostos estigmatizados que surgiram nos últimos cem anos, apenas cinquenta ou sessenta foram admitidos como autênticos, mediante testemunhos comprovados, e alguns destes recorreram à fraude ou causaram as feridas naturalmente, de modo que o fenômeno pode ser considerado muito raro e como um notável sinal de Deus para aqueles que O servem com verdadeiro heroísmo. Com pouquíssimas exceções, os estigmatizados mais famosos foram frades, monjas ou terciários de uma ou outra das ordens mendicantes, e a maioria foram mulheres.


Em todas ou quase todas as numerosas biografias de São Francisco de Assis que se publicaram, relata-se o caso dos estigmas. As provas contemporâneas, como a carta do irmão Elias e o documento chamado Bênção do irmão Leão, assim como a Vita prima de Tomás de Celano, são conclusivas quanto à existência dessas marcas milagrosas. Paul Sabatier, o Dr. J. Merkt (Die Wundmale des Franziskus von Assisi, 191), e outros mais tentaram dar uma explicação natural e, sobre seus pontos de vista, pode-se consultar Bihl em Archivum Franciscanum Historicum, julho de 1910, e Kóniger em Historisches Jahrbuch, 1910, pp. 787 e segs. Na coleção Studi Francescani (1924) dedica-se um volume ao sétimo centenário da estigmatização. Ali se encontra um importante artigo (pp. 140-174) de A. Gemelli sobre Le Affirmaziones della Scienza intorno alle Stimmate di S. Francesco. Cf. V. Facchinetti em Le Stimmate di S. Francesco (1931?) e Faloci Pulignani em Miscellanea Francescana, vol. XV, pp. 129-137. Para o caso dos estigmas em geral ver H. Thurston em The Physical Phenomena of Mysticism (1952) e Douleur et stigmatisation (1936), na série Études Carmélitaines. Inclui-se um excelente artigo de Fr. P. Debongnie sobre a estigmatização na Idade Média, onde critica a obra do Dr. Imbert-Gourbeyre (La Stigmatisation..., 2 vols., 1894), como antes o fizeram Fr. Gemelli e Fr. Thurston. Ver também Die Stigmatisation mit den Blutmalen (1948), de F. L. Schleyer, que faz um estudo sobre a frequente coincidência entre a estigmatização e os graves transtornos nervosos.1



Referências:


1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 3, pp. 591-594.



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