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Festa da Aparição de São Miguel Arcanjo (8 de maio)

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A aparição de São Miguel no Monte Gargano, por Cesare Nebbia (1536–1614)
A aparição de São Miguel no Monte Gargano, por Cesare Nebbia (1536–1614)

† A APARIÇÃO DE SÃO MIGUEL ARCANJO (¿492? d.C.) †


Como o povo estava convencido de que São Miguel Arcanjo não era apenas o capitão das hostes celestiais e um grande protetor, mas também o árbitro da sorte dos homens em sua passagem para a eternidade (cf. 29 de setembro), era impossível que as numerosas orações que o povo cristão elevava a tão poderoso intercessor não chegassem a manifestar-se de forma externa e pública. Qualquer lenda milagrosa relacionada a São Miguel bastava para cristalizar de maneira determinada a devoção latente dos cristãos. Há alguns indícios de que, em tempos muito antigos, atribuíam-se a São Miguel as maravilhas operadas nas fontes termais da Frígia, especialmente em Hierápolis. Parece certo que já no século IV existia perto de Constantinopla uma igreja dedicada ao Arcanjo, provavelmente construída na época de Constantino, o primeiro imperador cristão. A devoção a São Miguel nasceu no Oriente; porém há provas de que, desde época muito antiga, havia sido construída uma basílica em honra do Arcanjo perto de Roma, na Via Salária. O primeiro missal romano, chamado “Leonianum”, contém várias Missas relacionadas, ao que parece, com esse ou outros santuários de Roma dedicados a São Miguel; tais Missas ocorrem no fim de setembro. 1


É impossível determinar se a dedicação do santuário do Monte Gargano, na Apúlia, onde predominava a influência grega, ocorreu em época anterior. Segundo a lenda escrita, resumida no Breviário, a dedicação realizou-se no tempo do Papa Gelásio. O Breviário Romano afirma ainda, nas lições de 8 de maio, que o Papa Bonifácio II construiu uma igreja em honra de São Miguel Arcanjo “no grande circo”; essa afirmação parece confundir o Circus Maximus com o menor Circus Flaminius, que já não existe, mas ficava em frente à Ilha Tiberina, na área do atual bairro judeu. Ao lado de sua antiga localização ergue-se um pórtico romano, construído pelo imperador Augusto em honra de sua irmã Otávia e, dentro dele, uma pequena igreja dedicada ao Arcanjo. Esse foi o local tradicional do mercado de peixes de Roma até o século XIX e, por isso, a igreja ficou conhecida como “Sant’Angelo in Pescheria” — “O Santo Anjo no Mercado de Peixes”.


São Miguel Arcanjo e o Touro, por Sebastián López de Arteaga (1610–1652)
São Miguel Arcanjo e o Touro, por Sebastián López de Arteaga (1610–1652)

Contudo, o Martirológio Romano não relaciona a festa de setembro a nenhuma dessas igrejas, mas sim ao santuário de São Miguel no Monte Gargano, geralmente considerado a primeira igreja dedicada a ele no Ocidente. A festa de hoje é chamada “Aparição de São Miguel” por causa de uma narrativa situada no final do século V e transmitida de forma não totalmente uniforme pelas fontes antigas. A versão apresentada no Breviário conta que um touro pertencente a um homem chamado Gargano entrou e ficou preso em uma caverna na encosta da montanha. Quando alguém lançou uma flecha contra o animal, ela retornou contra quem a disparou; os habitantes da região então perguntaram ao bispo o que significava aquele prodígio. O bispo declarou que deveriam rezar e jejuar durante três dias, após os quais São Miguel lhe apareceu e afirmou que o lugar estava sob sua proteção e que ali deveria ser construída uma igreja em sua honra.


O Martirológio descreve essa igreja como “vili quidem facta schemate, sed caelesti praestans virtute” — “feita de modo simples, mas extraordinária pelo poder celeste”. Na verdade, grande parte da igreja não foi “construída”, ao menos não por mãos humanas. O Monte Gargano é um grande maciço, mais parecido com uma mesa rochosa do que com uma colina, muito íngreme em sua face norte, onde se encontra o santuário, enquanto a cidade de Monte Sant’Angelo localiza-se no topo. Entra-se no santuário por um pátio na cidade e, após atravessar as portas, desce-se por um grande número de degraus até a igreja. A própria igreja é metade caverna natural e metade conjunto de salas, incluindo coro e capela de relíquias, construídos diante da abertura da gruta e sustentados por enormes contrafortes que descem profundamente pelo maciço.


No norte da Europa, Mont-Saint-Michel ocupa o mesmo lugar que o Monte Gargano ocupa na Itália, e a festa da aparição de São Miguel ali é celebrada em 16 de outubro. No Breviário de Sarum, as lições de Matinas para essa festa começam reconhecendo que a devoção a ele no Gargano era mais antiga.


“Depois que a nação franca, marcada pela graça de Cristo, submeteu por toda parte o orgulho dos soberbos, o Arcanjo Miguel, colocado como guardião do Paraíso, que anteriormente demonstrara por muitos sinais desejar ser venerado no Monte Gargano, mostrou agora que devia ser honrado no lugar chamado pelos habitantes de ‘Tumba’.” [Mons Tumba é o nome latino do Mont-Saint-Michel.]


O Mont-Saint-Michel está situado no noroeste da França.
O Mont-Saint-Michel está situado no noroeste da França.

A história continua dizendo que, no início do século VIII, São Miguel apareceu três vezes ao bispo local, São Auberto de Avranches, ordenando-lhe construir não apenas um santuário, mas uma réplica do de Gargano.2


Conta-se que numerosos milagres ocorreram na caverna, onde havia uma fonte à qual eram atribuídas propriedades curativas. É evidente que o santuário rapidamente se tornou muito famoso em todo o Ocidente, pois um dos mais antigos manuscritos do Hieronymianum o menciona a propósito da festa de São Miguel Arcanjo em 29 de setembro.


Na Inglaterra, a coleção anglo-saxônica de sermões conhecida pelo nome de “Blickling Homilies”, escrita no fim do século X, relata os acontecimentos da caverna do Monte Gargano. Citemos uma tradução moderna desse documento:


“Da própria pedra do teto da igreja, no lado norte do altar, brotava uma água clara e saborosa, da qual se serviam os habitantes do lugar. Junto à fonte, suspenso por uma corrente de prata, havia um vaso de cristal que recolhia as gotas de água. O povo, depois de receber a comunhão, costumava subir a escada que conduzia até o vaso para provar aquele líquido celestial.” 3


São Miguel Arcanjo pisando no diabo, por Guercino (1591–1666)
São Miguel Arcanjo pisando no diabo, por Guercino (1591–1666)

Este documento é um excelente testemunho de que, muito antes de ser suprimida a comunhão sob as duas espécies, existia o costume de beber um pouco de água após receber o Preciosíssimo Sangue, seja separadamente, seja na hóstia molhada no cálice, como ainda se faz no Oriente.


O rito bizantino conserva uma festa semelhante, ligada a um santuário na Frígia, na parte centro-ocidental da Ásia Menor. Em Chonai, perto da cidade de Colossos — cujos cristãos receberam uma carta de São Paulo Apóstolo — São Miguel apareceu ao pai de uma menina muda, orientando-o a levar a filha a uma fonte próxima, onde ela recuperou milagrosamente a fala. Uma igreja foi então construída sobre a fonte, atraindo muitos cristãos e produzindo numerosas conversões. Os pagãos da região tentaram destruir a igreja desviando dois rios contra ela, mas São Miguel veio pessoalmente defender seu santuário; ao golpear uma rocha próxima, abriu-se nela uma fenda que engoliu a corrente das águas. A festa do “Milagre de São Miguel Arcanjo em Chonai” é celebrada em 6 de setembro; o Mosteiro Chudov, em Moscou, antigamente importante centro de estudos e hoje destruído, recebeu o nome desse milagre.


Os dois hinos de São Miguel estiveram entre os mais drasticamente alterados na revisão do Papa Urbano VIII; existe uma bela gravação do texto original do hino de Vésperas, preservado pelos beneditinos e pelas ordens religiosas com usos próprios, alternando canto gregoriano e polifonia.


O antipapa João XXIII, por um "Motu Proprio" de 25 de julho de 1960, suprimiu esta festa do Calendário Romano.


O texto completo da lenda encontra-se em Ughelli, vol. VII, cc. 1107-1111, e em Acta Sanctorum, setembro, vol. VII; cf. Ebert, Geschichte der Literatur des Mittelalters, vol. II, p. 358. Ver igualmente K. A. Kellner, Heortology (1908), pp. 328-332, e H. Leclercq em DAC., vol. XI, cc. 903-907. Houve certa confusão entre esta festa e a de 29 de setembro; o Papa Bento XIV propôs a supressão da celebração do dia de hoje, que já não existe no Calendário Beneditino. Quase não se pode duvidar de que a fundação de Saint-Michel au Péril de Mer — o famoso Mont-Saint-Michel nas proximidades de Avranches —, que a tradição situa em 709, tenha tido origem na lenda do Monte Gargano. Não sabemos com certeza quando o nome de São Miguel foi dado ao santuário de Marazion, na Cornualha; porém isso deve ter ocorrido antes que Roberto de Mortain entregasse o santuário de Mont-Saint-Michel aos monges de São Miguel, in Periculo Maris (c. 1086), se as atas forem autênticas. Ver T. Taylor, The Celtic Christianity of Cornwall (1916), pp. 141-168; St Michaels Mount (1932), do mesmo autor, e J. R. Fletcher, Short History of St Michaels Mount (1951).4




Referências:


1. Texto de Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, p. 238, traduzido e adaptado.

2. Tirado de "Liturgical Notes on the Apparition of St Michael", por Gregory DiPippo. (New Liturgical Movement).

3. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 2, p. 238.

4. Ibid. p. 239.



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