Vida de Santo Eleutério e São Leodégario de Autun (2 de outubro)

“Quando o palácio de Diocleciano, em Nicomédia, foi incendiado, o crime foi falsamente atribuído ao santo soldado e mártir Eleutério e a muitos outros. Todos eles foram condenados à morte por ordem do cruel imperador. Alguns foram decapitados, outros morreram queimados e os demais foram lançados ao mar. Eleutério era o principal entre eles. A prolongada tortura a que foi submetido apenas colocou em evidência sua coragem, e o santo alcançou a coroa do martírio, purificado no fogo como o ouro.”
O Martirológio Romano resume assim o martírio de Santo Eleutério, mas, na realidade, tudo o que sabemos sobre ele é seu nome e o lugar onde sofreu.
O dado mais importante é que o Breviarium sírio do século V registra, no dia 2 de outubro: “Em Nicomédia, Eleutério”. O Hieronymianum tomou daí essa notícia; cf. CMH., p. 537. Como demonstrou Dom Quentin em Les Martyrologes historiques, pp. 615-616, a associação desse mártir com o incêndio do palácio de Diocleciano é simplesmente uma invenção do martirologista Adão.1

São Leodégario nasceu por volta do ano 616. Seus pais o enviaram à corte do rei Clotário II, que o confiou aos cuidados de seu tio Didão, bispo de Poitiers, o qual designou um sacerdote para educá-lo. Leodégario progrediu rapidamente no saber e ainda mais depressa na ciência dos santos. Por seus méritos e habilidades, seu tio o nomeou arquidiácono da diocese quando ele tinha apenas vinte anos. Depois de receber o sacerdócio, Leodégario foi obrigado a assumir o governo da abadia de Saint-Maxence, cargo que desempenhou por seis anos. Quando tinha cerca de trinta e cinco anos foi nomeado abade. Seu biógrafo o descreve como um homem que inspirava mais temor que afeto. “Como possuía conhecimentos de direito civil, era severo em seu julgamento dos leigos. Por outra parte, seu conhecimento do direito canônico fazia dele um excelente mestre do clero. Os prazeres da carne não o haviam enfraquecido, de modo que tratava com suma severidade os pecadores.” Diz-se que introduziu a Regra de São Bento em seu mosteiro que, por sinal, necessitava de sua mão firme de reformador.
A regente, Santa Batilde, chamou São Leodégario à corte e, no ano de 663, o nomeou bispo de Autun. Essa sé vacava havia dois anos, pois a diocese estava muito dividida e os chefes de um partido matavam os do outro para tomar o governo. A nomeação de São Leodégario aplacou as desavenças, e os partidos se reconciliaram. O santo se consagrou a socorrer os pobres, instruir o clero, pregar frequentemente ao povo, decorar as igrejas e fortificar as cidades. Num sínodo diocesano pôs em vigor muitos cânones para a reforma dos costumes do povo e dos mosteiros. Como dizia, se os monges fossem como deviam ser, suas orações preservariam o mundo das calamidades públicas.
O rei Clotário III morreu no ano 673, quando São Leodégario já levava dez anos como bispo. Assim que recebeu a notícia, foi à corte e ofereceu seu apoio a Quilderico, que conseguiu triunfar das intrigas de Ebroíno, mordomo do palácio da Neustria. Ebroíno foi exilado em Luxeuil. Quilderico II governou com acerto enquanto soube ouvir os conselhos de São Leodégario. A influência do santo no início do reinado de Quilderico era tão grande, que alguns documentos o consideram como mordomo do palácio. Mas o jovem monarca, de caráter muito violento, acabou por se entregar aos impulsos de sua vontade e contraiu matrimônio com sua prima, sem obter a dispensa necessária. São Leodégario o advertiu em vão. Alguns nobres aproveitaram a ocasião para pôr em dúvida a fidelidade do santo durante a Páscoa do ano 675, quando Quilderico se encontrava em Autun. A duras penas São Leodégario conseguiu escapar vivo da prisão e depois foi exilado em Luxeuil, onde ainda estava seu rival Ebroíno. Mas um nobre chamado Bodilo, a quem Quilderico mandara açoitar publicamente, assassinou o monarca, sucedido então por Teodorico III. São Leodégario pôde então voltar à sua sé e foi recebido com grande júbilo em Autun. Ebroíno também voltou do exílio de Luxeuil e marchou para a Borgonha. Ali reuniu um exército e atacou São Leodégario em Autun. Em vez de fugir, este organizou uma procissão com as relíquias dos santos ao redor das muralhas da cidade e se prostrou diante de cada uma das portas para rogar a Deus que protegesse o povo, mostrando-se pronto a morrer por ele. Os habitantes de Autun defenderam valentemente a cidade. Mas, após alguns dias, São Leodégario lhes disse: “Não continueis combatendo. O que o inimigo quer é a minha cabeça. Enviemos alguns de nossos irmãos para saber em que condições estão os contrários.” O duque da Champanha, Waimero, respondeu aos enviados que a única condição era entregarem o bispo. Então Leodégario saiu valentemente da cidade e entregou-se aos atacantes. Imediatamente lhe arrancaram os olhos. O santo suportou a tortura sem uma queixa e não permitiu que lhe atassem as mãos. Waimero o levou consigo à Champanha. Ali lhe devolveu o dinheiro que havia roubado durante o saque da igreja de Autun, e São Leodégario o enviou de volta àquela cidade para que fosse distribuído entre os pobres.

Ebroíno tornou-se o senhor absoluto da Neustria e da Borgonha. Sob o pretexto de vingar a morte do rei Quilderico, acusou São Leodégario e seu irmão Gerino de haver participado da conspiração. Gerino foi apedrejado na presença de São Leodégario. O Martirológio Romano celebra hoje a Festa deste mártir. Ebroíno não podia condenar São Leodégario antes que fosse deposto por um sínodo, mas aproveitou a oportunidade para tratá-lo da forma mais bárbara, pois mandou cortar-lhe a língua e os lábios. Depois o confiou aos cuidados do conde Waring, que o encerrou no mosteiro de Fécamp, na Normandia. Ali São Leodégario curou milagrosamente e recuperou a fala. Após o assassinato de seu irmão Gerino, havia escrito uma carta a sua mãe, que era religiosa em Soissons, para felicitar Sigradis por ter abandonado o mundo, e ao mesmo tempo consolava-a pela morte de Gerino, dizendo-lhe que o que era motivo de alegria para os anjos não podia ser motivo de dor para eles. Igualmente a exortava ao valor e à constância, assim como ao perdão cristão dos inimigos.
Dois anos mais tarde, Ebroíno mandou chamar São Leodégario a Marly, onde havia reunido alguns bispos para que o depusessem. Por mais que os juízes quisessem arrancar do santo a confissão de sua participação no assassinato de Quilderico, ele se negou a admiti-lo. Os juízes rasgaram então suas vestes como símbolo de deposição, e São Leodégario foi entregue ao conde Crodoberto para que executasse a sentença de morte. Para evitar que o povo considerasse o bispo como mártir, Ebroíno mandou lançar secretamente o cadáver em um poço. Crodoberto não quis manchar as mãos com o sangue de uma vítima inocente e confiou a execução a quatro de seus homens. Estes conduziram o santo a uma floresta; três deles lhe pediram ali perdão de joelhos e Leodégario ajoelhou-se para orar por eles. Quando manifestou que estava pronto para morrer, o quarto dos homens lhe cortou a cabeça. Apesar das ordens de Ebroíno, a esposa de Crodoberto sepultou o cadáver em uma pequena capela de Sarcing, na Artois. Três anos depois, as relíquias foram trasladadas ao mosteiro de Saint-Maxence em Poitiers. A luta entre São Leodégario e Ebroíno é um episódio famoso na história merovíngia. Nem todos os homens de bem estavam de seu lado; alguns deles, como São Owen, eram partidários de Ebroíno. Naquela época, era inevitável que os bispos tomassem parte ativa na política e, ainda que o Martirológio Romano diga que São Leodégario (o “Beato” Leodégario) sofreu “pela verdade”, não está muito claro por que se lhe venera como mártir.

Na Acta Sanctorum (outubro, vol. 1, publicado em 1765), o Pe. C. de Bye consagra mais de cem páginas in-folio a São Leodégario. Esse autor publica duas biografias antigas; ainda que não concordem em todos os detalhes, as considera como obras de contemporâneos do santo. A tarefa de resolver mais ou menos satisfatoriamente o problema histórico das convergências e divergências dessas duas biografias estava reservada a B. Krusch (Neues Archiv, vol. XVI, 1890, pp. 565-596). Krusch sustenta que nenhum dos dois autores era contemporâneo de São Leodégario, mas que havia uma terceira biografia (da qual se conserva um fragmento importante em um manuscrito de Paris, Latin 17002), escrita uns dez anos depois da morte de Leodégario, por um monge de Saint-Symphorien interessado em reivindicar a política do sucessor do santo na sé de Autun. As biografias publicadas pelos bolandistas foram escritas uns setenta anos depois, sobre a base da primeira biografia, e não carecem de importância histórica. Krusch (MG., Scriptores Merov., vol. V, pp. 249-362) reconstituiu o texto da biografia original tal como o imaginava. Acrescentemos que a carta de Leodégario a sua mãe é indubitavelmente um documento autêntico, ao passo que o testamento que se lhe atribui se presta a muitas objeções. Veja-se Analecta Bollandiana, vol. XI (1890), pp. 104-110 e Leclercq, em DCA., vol. VIII, cc. 2460-2492. A Histoire de S. Léger, de Pitra (1890), já está ultrapassada, embora em sua época tenha revelado alguns novos textos. A biografia escrita pelo Pe. Camerlinck na coleção Les Saints tende ao tom de panegírico e não é muito crítica; contudo, constitui um relato aceitável dessa tragédia histórica. Como provam os calendários, o culto de Leodégario na Inglaterra é muito antigo; sua festa costumava ser celebrada em 2 ou 3 de outubro.2
Referências:
1. Butler, Alban. Vida dos Santos, vol. 4, p. 10.
2. Ibid. pp. 11-13.






















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